Limites: você conhece e respeita os seus?

Entender quais são seus limites e expressá-los é necessário para ter uma vida mais saudável e real.

Você sabe quais são seus limites? Sabe dizer ou pelo menos sente quando foram ultrapassados? Você costuma respeitá-los ou extrapola seus limites com você mesmo, seu tempo, seu trabalho, com a sua família, suas finanças e nos seus relacionamentos? Você consegue dizer “não” para os outros, para o que não quer, não pode, não gosta? Se coloca em relações e situações que não tem como lidar no momento? Alguns acreditam que colocar limites é ser egoísta. Será que é isso mesmo?

Eu não saberia responder a estas perguntas há alguns anos atrás. Não saberia dizer quase nada sobre o que eram os meus limites. Até que comecei a entender que muitos dos meu problemas vinham da falta deles.

Dizer não pode ser uma tarefa difícil quando não sabemos porque, quando e como dizer. É preciso ter autoconhecimento para se entender, para saber o que vale o nosso sim e o que vale o nosso não. O que sentimos, o que queremos. E quando e como vale dizer: “Ei, não gostei, não quero, prefiro assim, que tal se… etc”.

Entender porque e pra que estamos dizendo não e depois como vamos dizer esse não – às vezes até sem precisar falar de fato a palavra “não” – vale demais a pena. Muda nossas vidas completamente.

Em alguns momentos vamos precisar saber dar um “não” firme, para nós e/ou para o outro. Em outros momentos cabe um não amoroso e generoso, cabe negociar, e principalmente cabe antecipar situações para não termos que chegar nos limites delas. Cada caso é um caso e cada passo dado é um treinamento, uma experiência somada onde vamos ganhando confiança e aprendendo a lidar com os desconfortos que vem de se apropriar e expressar os nossos nãos e nossa verdade. Desconfortos estes que evitamos tanto, e que por evitarmos, nos trazem desconfortos muito maiores, muitas vezes.

Limites x egoísmo

Sempre que falo sobre limites, uma das primeiras questões que aparecem é o egoísmo. E isso trata-se de um mito. Temos essa ideia de que colocar limite é ser egoísta, porque acreditamos estar privando uma pessoa de algo e que o amor não incluiria isso. Mas quando a gente coloca limites em nossa vida, podemos notar que é justamente o oposto.

Nosso amor pode ser infinito, mas nossas relações precisam de limites para prosperarem de forma uma saudável. Deixar nossos limites claros e respeitar o do outro é um cuidado com a nossas relações.

Se eu não coloco limites nas minhas relações, o que poderá acontecer é um grande desgaste. Eu vou me sentir ressentida quando o outro ultrapassar meus limites, e vou tentar conseguir o que quero de uma forma não clara e indireta, tentando manipular o outro, ou posso me tornar passivo-agressiva. O que gera muita toxidade numa relação e falta de confiança.

A clareza que vem dos limites é muito mais saudável, amorosa e gera muito mais intimidade e confiança numa relação, seja ela qual for. Claro que geram desconfortos e nos pedem para lidar com frustrações, mas isto faz parte de se relacionar e amadurecer.

Quando colocamos limites nas relações vamos também deixando mais claro nossos desejos e intenções e dando espaço para o outro fazer o mesmo. E assim, vamos permitindo que o outro nos conheça de verdade e deixando o outro se mostrar também, criando mais confiança. Afinal, se todos temos nossos limites, eles fazem parte de quem somos.

O que você preferiria: uma relação que tenha mais clareza, transparência e confiança ou uma relação com uma comunicação mais indireta, talvez bastante passivo-agressiva e imprecisa, onde as coisas ficam apenas subentendidas?

Acredito que quando a gente coloca esses dois pontos na balança, a maioria de nós começa a perceber: “Nossa, pode ser muito mais egoísta não colocar os meus limites e não comunicá-los de uma forma clara, deixando o outro no escuro, tentando adivinhar o que quero, privando-o de conhecer o que gosto e/ou não gosto e o que é importante pra mim”. E vice e versa.

A gente começar a perceber que colocar limites na verdade é cuidar da relação para não deixar ela chegar no ponto de desgaste, quando a gente perde muito mais a força de tomar decisões boas para todas as pessoas envolvidas.

E os limites nas relações familiares?

Nas relações familiares, bem sabemos, é muito comum que os limites de todos fiquem vulneráveis por conta da pseudo intimidade que existe entre seus membros. Essa aparente “liberdade” maior pode fazer um parente se sentir livre para nos tratar como desejar, opinar muito sobre nós e tentar controlar o que fazemos. Porém, é importante lembrar que intimidade não é sobre invasão, e sim, poder dizer como me sinto, poder me mostrar e ser vista de verdade.

Para estabelecer limites nas relações em família, comece a ter clareza do que você gostaria nestas relações e o resultado que deseja das interações que participar. Quando você sabe o que quer, até onde quer ir, você pode começar a expressar como quer ser tratado e como não gostaria de ser tratado. No começo pode não ser nada fácil pois é estranho, novo. Mas com pequenos passos, e com a linguagem adequada vamos tomando confiança.

Por exemplo, saiba se ao contar uma determinada coisa em família, o que deseja: opiniões, feedbacks, sugestões, empatia, apenas escuta, celebrar, etc. Depois disso seja pró-ativo, antes de começar, explique porque está contando aquilo e o que gostaria ou precisa: “Estou contando isso porque queria apenas dividir com vocês e celebrar isto”, diga que não está aberto a opiniões no momento se você não gostaria de receber a opinião/conselho não solicitado do outro. Assim o outro também se sente mais seguro.

Deixando as coisas mais claras nas nossas relações elas podem fluir muito melhor. E o outro entende mais como é que ele pode contribuir para a nossa situação, se for da vontade dele.

Todavia, as coisas não funcionam de uma maneira linear, e nem preto no branco. Ainda vão ter aqueles que se intrometem na vida alheia de forma impositiva, taxativa, constrangedora, etc, mesmo quando já foram alertados. Como colocar limites diante dessas situações?

Nesse caso, você pode estabelecer consequências caso essas ações continuem. Deixe claro para esta pessoa como você vai agir. Explique que se ela continuar você vai: se retirar, deixar de compartilhar estas questões com ela, etc. E caso esta pessoa volte a insistir, realmente faça o que prometeu, seja firme pois, desta forma, esta pessoa terá a oportunidade de sentir o impacto do comportamento dela. Muitas vezes é isso o que é necessário para que alguém comece a mudar seus comportamentos e a respeitar mais o limite dos outros.

É importante lembrar que intimidade não é invasão, e sim sobre poder dizer como me sinto, poder me mostrar e ser vista de verdade.

Além disso, quando conseguimos dar um basta, nos posicionar ou negociar situações que nos incomodam, vamos nos fortalecendo. Começamos a entender que podemos contar com nós mesmos para enfrentar desafios. E mesmo que tenhamos que lidar com culpa – pois no começo é muito provável que a gente vá sentir ela ao estabelecer nossos limites – sabemos que podemos cuidar dos nossos sentimentos pois temos alguém do nosso lado que nos protege e acolhe. E esse é alguém somos nós.

Limites nas finanças

Agora existem também outros limites nas nossas vidas. Diversas pessoas têm dificuldades para entrar em contato com limites, principalmente quando falamos de dinheiro. O que fazer? Uma das coisas mais belas sobre aprender limites é que isso nos obriga a estar em contato com a: realidade. Isso significa sair da fantasia e da ideia de que as coisas são infinitas. A palavra limites já diz: algo que é limitado. E o que é limitado? Nosso tempo, nossa energia, nossos recursos. E isso é estar em contato com a realidade.

Se nosso tempo e energia são limitados, não poderemos dizer sim para tudo, não conseguimos dar conta. E por isso precisamos priorizar as coisas baseadas nos nossos valores e objetivos mais importantes para nós.

Assim é também com a nossa vida financeira. Se sabemos que este é um recurso limitado (e cada um sabe das sua situação), podemos encarar a nossa realidade financeira pensando no quadro geral dela, revendo os gastos, dando prioridades. E isso não significa tirar o nosso prazer também. Apenas ter uma ideia clara do que será destinado a isso de acordo com o que podemos agora.

E é interessante pensar que quando realmente sabemos do que gostamos e nos dá prazer, podemos dizer não mais facilmente a muitas das gratificações instantâneas impulsivas que muitas vezes são ralos de escoamento que não nos permitem investir no que realmente importa: em criar uma vida boa para nós, com mais segurança, prazer e menos desespero.

Agora podemos também depender financeiramente de alguém, isso pode trazer várias questões para nossa vida também. Nestes casos limites também serão importantes. Se está é a nossa situação, o ideal é que possamos pensar na prevenção de futuros problemas deixando tudo sempre muito claro e acordado. Alinhe expectativas, deixe claro as suas e de todos os envolvidos.

Se tiver dúvidas, pergunte. Pergunte para a pessoa o que ela espera de você enquanto está te ajudando. Veja se isso funciona para você. Ao fazer isso, você estará estabelecendo um acordo entre vocês, e você se sentirá mais seguro entrando de forma mais tranquila e transparente nessa situação. Além de estar prevenindo muitos desgastes nesta relação.

E sim, é possível que você possa ficar decepcionado com algumas respostas, sempre que decide deixar as coisas mais claras. Entretanto sabendo do desejo e intenções do outro, e podendo expressar os seus, terá como negociar os quesitos desse acordo antes de ficar refém de situações ou sentimentos desconfortáveis.

E saiba: sempre existe a possibilidade de reconfigurar um acordo, checar como as coisas estão para todos e se existem formas de melhorar.

Para pôr limites é preciso que a gente entenda o que eles são, quais são os nossos e que temos direto a eles e os outros também.

Fonte: MSN
Texto: Ariana Schlösser

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