Exercícios moderados já melhoram a memória; mas quanto mais tempo, melhor

Um único treino físico moderado pode ter efeito imediato sobre o funcionamento do cérebro e a capacidade de reconhecer nomes comuns e informações similares. É o que concluiu um novo estudo promissor sobre exercícios, memória e envelhecimento.

A pesquisa vem enriquecer as crescentes evidências de que os exercícios podem impactar rapidamente a função cerebral; além disso, esses efeitos podem se acumular e levar a melhorias de longo prazo relacionadas ao modo como o cérebro e a memória funcionam.

Até recentemente, os cientistas acreditavam que, ao atingir a idade adulta, o cérebro humano já estivesse relativamente estabilizado em matéria de estrutura e função, especialmente em comparação aos tecidos maleáveis, como os músculos, que crescem e se atrofiam em consequência direta do modo como vivemos. Entretanto, diversos experimentos atuais têm mostrado que o cérebro dos adultos pode ser bastante plástico, se renovando e se remodelando das maneiras mais diversas, dependendo do estilo de vida.

Os exercícios, por exemplo, sabidamente exercem influência sobre o cérebro. Em experiências com animais, foram responsáveis pelo aumento da produção de neurotransmissores e neurônios novos em cérebros maduros, além de terem aperfeiçoado as habilidades de raciocínio dos bichos.

Os estudos mostram que, de forma similar, em seres humanos, a prática regular de exercícios ao longo do tempo aumenta o volume do hipocampo, uma parte crucial dos mecanismos de memória do cérebro, e favorece muitos aspectos do pensamento.

Contudo, questões substanciais sobre a relação exercício/cérebro seguem sem resposta, incluindo o curso temporal de quaisquer mudanças e se elas são de curto ou longo prazo, considerando a prática física contínua. Esse ponto em particular intrigou cientistas da Universidade de Maryland. Eles já tinham publicado um estudo em 2013 com adultos mais velhos, observando os efeitos em longo prazo do exercício em regiões do cérebro responsáveis pelo processamento da memória semântica.

A memória semântica é essencialmente o conhecimento que trazemos do mundo e da cultura em que estamos inseridos. Ela representa o contexto de nossas vidas – um acervo de nomes e conceitos comuns, como “O que é a cor azul?” ou “Quem é Ringo Starr?”. Ela também pode ser efêmera, sendo uma das primeiras formas de memória a esvanecer-se à medida que se envelhece.

Mas, na primeira pesquisa de Maryland, os estudiosos concluíram que um programa incluindo 12 semanas de caminhada na esteira modificou o funcionamento de partes do cérebro envolvidas na memória semântica. Após quatro meses de exercícios, essas seções do cérebro ficaram menos ativas durante os testes de memória semântica, o que é um resultado desejável. Menos atividade sugere que o cérebro se tornou mais eficiente ao processar a memória semântica por causa dos exercícios, exigindo menos recursos para acessar as lembranças.

Para o novo estudo, publicado em abril no periódico científico “The Journal of the International Neuropsychological Society”, os cientistas decidiram recuar um pouco e interpretar os estágios envolvidos no processo até atingir aquele estado. Especificamente, queriam entender como um único treino físico poderia mudar a maneira como o cérebro processava as memórias semânticas.

Para tanto, recrutaram 26 homens e mulheres saudáveis com idades entre 55 e 85 anos sem problemas sérios de memória e pediram que fossem ao laboratório de exercícios duas vezes. Lá, ficavam em repouso ou praticavam 30 minutos em uma bicicleta ergométrica, treino que, segundo os pesquisadores, estimularia, mas não esgotaria, os participantes.

Na sequência, os voluntários foram introduzidos em um equipamento de ressonância magnética para examinar o cérebro. Dentro do aparelho, sobre a cabeça, viam uma tela de computador onde piscavam nomes, alguns famosos, como Ringo Starr, enquanto outros foram tirados de uma lista telefônica local.

Nomes famosos são um elemento importante da memória semântica. Os voluntários precisavam pressionar um botão na tela quando reconhecessem nomes de celebridades e outro quando o termo não lhes fosse familiar. Enquanto isso, os pesquisadores rastreavam tanto a atividade cerebral geral deles quanto as regiões envolvidas no processamento da memória semântica.

A expectativa dos cientistas era encontrar as áreas necessárias para o trabalho da memória semântica com pouca atividade depois dos exercícios, assim como aconteceu após semanas de treino, contou J. Carson Smith, professor associado de cinesiologia e diretor do Laboratório para a Saúde do Cérebro da Escola de Saúde Pública da Universidade de Maryland, que supervisionou o novo estudo.

Entretanto, não foi isso que aconteceu. Pelo contrário, aquelas partes do cérebro mais envolvidas na memória semântica demonstraram uma atividade muito mais efervescente após as pessoas terem se exercitado do que após o repouso. A princípio, os resultados surpreenderam e intrigaram os pesquisadores, revelou Smith. Mas então começaram a suspeitar que estavam observando a origem de uma resposta de treinamento.

“É análogo ao que acontece com os músculos”, esclareceu Smith. Quando as pessoas começam a se exercitar, observou, os músculos tensionam e queimam energia. Mas, à medida que entram em forma, os mesmos músculos respondem de forma mais eficaz, empregando menos energia para o mesmo trabalho.

Os cientistas suspeitam que, da mesma forma, o pico da atividade cerebral após a primeira sessão de exercícios com bicicleta é o prelúdio de um remodelamento do tecido que, com treinos contínuos, vai aprimorar a função daquelas regiões. Em outras palavras, os centros de memória do cérebro entram em forma.

Contudo, esse estudo foi fundamentado no curto prazo e não mostra os passos intermediários necessários para a mudança no cérebro com exercícios regulares. Também não explica como a atividade modifica o cérebro, apesar de Smith acreditar no papel de uma elevação da ativação de certos neurotransmissores e outros elementos bioquímicos.

Ele e sua equipe esperam poder investigar mais a fundo tais tecidos em estudos futuros e se concentrar nos melhores tipos e quantidades de exercícios necessários para nos ajudar a manter as memórias daquele baterista genial dos Beatles e de todas as outras referências do nosso passado.

Fonte: UOL

Siga-nos e curta:

Crianças e o uso de telas: novas recomendações

Quantas vezes já nos deparamos com uma criança pequena, em um restaurante, por exemplo, hipnotizada e quieta, prestando a maior atenção em um desenho que passa em um celular ou laptop estrategicamente pendurado no seu carrinho? Os pais e amigos conversam livremente e o pequeno fica quietinho.

Pois é. Só que a Organização Mundial de Saúde (OMS) acaba de divulgar uma orientação restringindo o uso recreativo de telas para crianças menores de 1 ano de idade.

A recomendação é que crianças com menos de 1 ano de idade não sejam expostas e nenhuma tela. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que os menores de 2 anos não utilizem telas como recreação. Os que estão entre 2 e 5 anos podem usar telas por no máximo 1 hora por dia. Os maiores de 5 anos, no máximo 2 horas por dia.

Importante salientar, no entanto, que este período de uso das telas não deve ser direto. É essencial que a cada 20 minutos os pequenos façam uma pausa, andem, mexam-se um pouco e olhem à distância para que os olhos possam também “alongar” a visão.

Não custa lembrar que a miopia infantil está aumentando progressivamente no mundo inteiro, principalmente em decorrência do maior uso de telas.

A obesidade infantil também é motivo de preocupação, como todos sabemos, e as telas, sem nenhuma sombra de dúvida, são promotoras de inatividade física.

No entanto, uma das principais razões pelas quais restringe-se o uso de telas para crianças com menos de 2 anos é muito importante. Vamos entender. Nascemos com todos os nossos trilhões de neurônios formados. Estes neurônios, porém, não estão “conectados”. Até os 2 anos de idade a capacidade de conexão neuronal é absurdamente intensa. Cada conexão se chama sinapse. Cada bebê é capaz de fazer 700 sinapses por segundo. Isso se chama neuroplasticidade. Estas sinapses é que nos permitem desenvolver nossas capacidades cognitivas e habilidades físicas, essenciais para o processo do desenvolvimento.

Até que mais estudos – que podem, inclusive, ter outra visão sobre o assunto – definam com mais segurança o tempo recomendado de telas e em qual faixa de idade podem ser usadas, o melhor a fazer é seguir as orientações atuais e estimular e distrair os pequenos bebês com nosso afeto e carinho presencial.

Fonte: Bem Estar

Siga-nos e curta:

Clínica Cuidarte no Instragam

A Clinica Cuidarte está com um novo canal no Instagram e convidamos você a escrever essa nova história conosco. Siga-nos e marque um amigo!

Nosso novo IG, além de conteúdo informativo, abrangendo notícias e artigos sobre saúde de temas variados como bem estar e qualidade do sono trará novidades sobre a empresa, será atualizado diariamente, e dará a você uma visão mais ampla sobre nossos serviços.

Siga-nos e curta:

Natureza beneficia bem-estar e saúde da população, mostra pesquisa

O contato com a natureza ajuda na recuperação da fadiga mental.

Estudo tem demonstrado como o contato com a natureza, mesmo que indiretamente, por imagens, pode ajudar a melhorar o ânimo de pacientes em tratamento contra o câncer. Coordenado pela pesquisadora Eliseth Leão no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, o estudo demonstra como relação com a natureza pode ser um elemento de promoção da saúde.

Na primeira fase, houve mais de 28 mil avaliações de imagens da natureza produzidas pela própria equipe do estudo, com foco no bem-estar, que formou um banco de 450 fotos que podem ser usadas dentro dos hospitais em futuros procedimentos como este da pesquisa.

A partir dessas imagens, um vídeo foi criado e apresentado a 78 pacientes durante sessões de quimioterapia. Os dados ainda estão sendo analisados, mas já mostram que o estado de ânimo deles no momento que começam a receber o medicamento melhora após a visualização do vídeo.

“Já foi possível notar que os aspectos negativos de preocupação e ansiedade são inibidos e os positivos, de tranquilidade, são aumentados. Espero que esta tendência seja mantida com o final do tratamento dos dados”, ressaltou Eliseth. Segundo a pesquisadora, há teorias que servem de base para estudos da influência da natureza no bem-estar das pessoas, como a teoria da recuperação psicofisiológica do stress, mostrando que há uma reação restauradora imediata quando se está no meio da natureza.

“Depois tem uma outra [teoria] de recuperação da atenção: quando você está na natureza, você tem uma atenção que não é forçada, não é dirigida, então você consegue se recuperar da fadiga mental que nos acomete”, contou. “Outras pesquisas já antecederam o que a gente está fazendo agora. As pessoas já sabem que a natureza faz bem, como quando dizem querer ir à praia em situações de estresse, mas alguns tendem a achar que é algo muito pessoal e sem evidência científica”.

Por exemplo, um dos estudos que foram feitos na década de 80, segundo Eliseth, colocava pacientes internados em quartos que tinham vista para a natureza e outros em quartos que não tinham. “Aqueles que tinham vista [para a natureza] saíam do hospital antes, se recuperavam mais rapidamente. Então começaram a estudar como psicofisiologicamente a gente responde. Tem uma série de teorias que mostram que [a natureza] é um ambiente restaurador”.

O tema será discutido hoje (14), a partir das 10h, no painel “Saúde e Mata Atlântica”, na capital paulista, durante a programação do evento Viva a Mata 2019, na Unibes Cultural, realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica, com participação da pesquisadora.

“Muita gente sabe dos impactos causados pela degradação ambiental e como isso afeta a vida das pessoas, e alguns desastres recentes comprovam isso. Mas o que pouca gente sabe é como passar um tempo ao ar livre, principalmente em áreas verdes, traz não apenas benefícios ao bem-estar, como tranquilidade, mas também à saúde. É isso que queremos mostrar e resgatar a relação positiva entre as pessoas e o meio ambiente”, disse Erika Guimarães, bióloga e especialista em Áreas Protegidas da SOS Mata Atlântica.

O médico patologista Paulo Saldiva, que também participa do painel hoje de forma remota, concorda com as afirmações da pesquisadora. Para ele, as pessoas não passam indiferentes por uma floresta e, quanto maior a exposição à natureza, menor o risco de infecções, maior a taxa de recuperação e menor o tempo para a alta de um paciente.

“Ao termos contato com a natureza percebemos que há uma afinidade com ela, algo que enxergamos, pois foi imprintado em nosso genoma por milhares de anos de evolução”. Ele apresenta um dado da Universidade de Barcelona comprovando como a natureza além de confortar psicologicamente, também aumenta o cérebro de crianças e a produção de substâncias que reduzem inflamações e melhoram a imunidade.

Fonte: UOL

Siga-nos e curta:

Quando a mania de morder objetos pode virar problema?

Para evitar que o problema se agrave, o ideal é fazer um tratamento multidisciplinar, com dentista, fisioterapeuta e psicólogo.

Até que ponto a mania de morder objetos pode virar um problema? Morder objetos é um hábito parafuncional que causa muitas complicações nos dentes e na articulação temporomandibular.

Esse hábito pode provocar alguns problemas, como desgaste dos dentes (podendo até quebra-los), bruxismo, desgaste articular inflamatório, dor de cabeça e estalo nas articulações.

A mania de morder começou ainda na infância da relações públicas Carla Farias. Hoje ela tem 26 anos e não consegue se concentrar sem levar algo à boca. “Pego o que estiver perto, o que estiver na minha mão. Caneta, pente, capinha de celular”.

Ela já sofre com os efeitos. “Tenho bastante desgaste e tenho muita sensibilidade. Tenho bruxismo, o dente dói quando mordo porque fico tanto tempo fazendo força que tem dia que abro a boca e já está doendo”, conta.

Mesmo com o incômodo, ela nunca procurou um tratamento. Para evitar que o problema se agrave, o ideal é fazer um tratamento multidisciplinar, com dentista, fisioterapeuta e psicólogo.

Compulsão ou mania?
Morder objetos pode ser uma mania ou compulsão. A compulsão é quando foge ao controle da pessoa. Ela sente urgência, obrigação e necessidade de fazer aquilo. Já a mania é um comportamento repetitivo, mas não causa sofrimento, prejuízo e a pessoa está, de certa forma, no controle.

 

Fonte: Bem Estar

Siga-nos e curta:

As duas palavras que guardam o segredo da felicidade dos dinamarqueses

Os dinamarqueses são frequentemente considerados um dos povos mais felizes do mundo. Pyt é uma palavra usada para expressar que você aceita que uma situação está fora de seu controle.

Os dinamarqueses, tidos como um dos povos mais felizes do mundo, amam poucas coisas mais do que o hygge. Este conceito pode significar ler um livro enquanto se aconchega em um cobertor ou ter uma noite agradável com parentes ou amigos, com muitas risadas e uma boa xícara de chocolate quente, de gløgg (vinho quente) ou café na mão, dependendo da hora do dia e da época do ano. Mas esta imagem é quase idílica demais. Como um dinamarquês amante de hygge, posso dizer com certeza que até os dinamarqueses têm dias ruins. Então, o que fazemos quando não podemos recorrer a essas coisas reconfortantes? Dizemos a palavra mágica: pyt. Ou “pressione o pyt-knappen (o botão pyt)”.

Assim como hygge, pyt não tem uma tradução direta para outros idiomas. Algumas interpretações incluem “não importa”, “não se preocupe” ou “esqueça” – mas estas expressões não transmitem o aspecto positivo da palavra. Pyt é usada para dizer que você aceita que uma situação está fora de seu controle e, mesmo que esteja aborrecido ou frustrado, decide não desperdiçar energia pensando mais nisso. Você aceita e segue em frente. Pyt também é usada para confortar outras pessoas e amenizar situações infelizes.

A palavra favorita dos dinamarqueses

Pyt é uma palavra tão amada pelos dinamarqueses que, em setembro de 2018, foi escolhida como a favorita do país em uma competição realizada pela Associação Dinamarquesa de Bibliotecas (ADB). Curiosamente, hygge nem chegou a ser finalista.

Steen Bording Andersen, presidente da ADB, vê a vitória como um reflexo de nossas vidas estressantes e o desejo dos dinamarqueses de não se aborrecer e de relaxar. “É uma rebelião contra um traço cultural dinamarquês de ser bom em reclamar e encontrar falhas”, explicou ele. “A escolha vai um pouco contra o espírito de nosso tempo. Mas isso nos lembra de que as coisas poderiam ser piores.”

A popularidade da palavra não surpreende Chris MacDonald, escritor e palestrante que se mudou dos Estados Unidos para a Dinamarca há 20 anos. Em um artigo para o jornal dinamarquês Berlingske intitulado O que a Dinamarca me ensinou sobre a felicidade, ele escreve: “Pyt é uma das minhas palavras favoritas, é o som mais positivo que já ouvi. E tem um enorme poder quando se trata de abrir mão de coisas que não podemos mudar. Há muito alívio nessa palavra”.

Ele se deparou com pyt quando aprendeu dinamarquês. “É uma língua excepcionalmente monótona. É como ouvir um músico com uma escala de tons limitada. Então, comecei a notar essa palavra, que se destacou na escala sonora do dinamarquês e tem um som agradável”, disse ele. É verdade que o dinamarquês provavelmente nunca será eleito o idioma mais romântico do mundo devido a seus muitos sons duros e guturais. No entanto, o som de pyt é delicado e suave.

Durante minhas entrevistas com MacDonald, falamos sobre como pyt é geralmente usada para demonstrar a aceitação de uma situação frustrante e imutável – mas que não representa uma ameaça nem altera nossa vida. Parte disso é obviamente o significado da palavra, mas também é o sentimento e a atmosfera que o som de pyt cria.

Como Jonas Jensen, editor sênior do Den Danske Ordbog (Dicionário Dinamarquês) explicou: “Dentro da fonética, ‘i’ e ‘y’ são frequentemente considerados sons mais leves e ‘otimistas’ do que vogais mais arredondadas, como ‘o’ e ‘u ‘… (Pyt) é uma palavra legal de pronunciar.”

Acidente de bicicleta
Mas enquanto a língua dinamarquesa é cheia de vales e montanhas linguísticos – Jensen costuma dizer que “dinamarquês não é uma língua, mas uma doença de garganta” – o mesmo não pode ser dito da paisagem do país.

A Dinamarca é provavelmente um dos países mais amigáveis do mundo para os ciclistas, por ser um território quase todo plano. No entanto, podem ocorrer acidentes, como eu e minha família aprendemos com um casal britânico que decidiu explorar o país em suas bicicletas há mais de 20 anos.

No final de suas férias, a esposa caiu da bicicleta e quebrou a clavícula. Eles estavam nos arredores de uma pequena cidade chamada Sønder Omme e facilmente encontraram o pronto-socorro local. O médico de plantão (meu pai) levou o casal ao hospital da próxima cidade.

Enquanto a mulher fazia um exame de raio-X e tinha seus ferimentos tratados, meu pai ligou para minha mãe para dizer que ele chegaria em casa mais tarde do que o normal. Minha mãe sugeriu que meu pai convidasse o casal para jantar.

No final do dia, os dois britânicos não só receberam assistência médica dinamarquesa gratuita e foram alimentados por uma família local como também foram apresentados à palavra pyt e à sua capacidade de atenuar uma situação tensa.

Não me lembro do que comemos, mas, conhecendo minha mãe e dado o pouco tempo que teve para se preparar para a visita, provavelmente eram sobras de outras refeições postas à mesa juntas com algumas outras belas comidas dispostas sobre uma toalha de mesa com guardanapos e louças combinando.

Estávamos todos sentados, com comida em nossos pratos e vinho tinto em nossas taças. Meu pai ergueu a sua taça para o tradicional skål (brinde) antes de comermos. Quando o homem britânico pegou sua taça para brindar, ele derrubou vinho por toda a toalha branca. Veio um silêncio.

A esposa virou-se para o marido com um olhar de profundo desagrado, mas o que ela estava prestes a dizer foi interrompido por minha mãe. “PYYYYT med det! (Não se preocupe com isso!) Vamos lavar a toalha de mesa amanhã”, ela exclamou. O resto da noite foi puro hygge, e o casal veio jantar de novo alguns dias depois. O poder de pyt mudou uma atmosfera potencialmente negativa para uma de alívio.

Crianças aprendem o conceito desde cedo

O poder desta palavra também é aproveitado de outras formas. Seu significado é ensinado a crianças no jardim de infância e na escola primária por meio de um botão pyt. Geralmente, é apenas uma tampa de plástico com a inscrição da palavra, colada a um pedaço de papelão e colocada em algum lugar central na sala de aula, para ser usada em situações em que as crianças se sentem incomodadas, como ao não chegarem em primeiro lugar em uma corrida ou vencer um jogo. Essencialmente, elas aprendem desde cedo que perder não é algo ruim, porque isso também faz parte da vida.

“O botão pyt é genial. Não funciona para todas as crianças, mas, para algumas delas, é ótimo. A ação de pressionar um botão físico parece ajudá-las a limpar suas mentes e a seguir em frente”, diz disse Charlotte Sørensen, professora da cidade de Hammel.

Os visitantes da Dinamarca podem até comprar sua própria versão do botão pyt em lojas locais. Esses botões de plástico vermelho e branco lembram os que os concorrentes nos programas de TV mostram quando têm a resposta certa. Pressione e você ouvirá a palavra pyt, o que te lembra de voltar à situação e focar novamente.

A palavra parece especialmente apropriada em um país com clima que varia de uma hora para outra. Ao longo dos anos, fiz inúmeras mudanças de planos de última hora, quando meu otimismo mais uma vez foi confrontado pela realidade. Piqueniques e churrascos tiveram de ser movidos para dentro de casa, e as viagens de praia se transformaram em visitas a piscinas cobertas.

Nestes momentos, um ou mais pyts foram proferidos enquanto respirávamos profundamente – e elaborávamos um plano B. E assim aprendi que esses planos alternativos geralmente acabam sendo hyggeligere (mais reconfortantes) do que os originais.

Fonte: BBC

Siga-nos e curta:

As 9 frases para relações mais felizes

Verbalizar o que se sente de bom ao ver uma pessoa é um começo para se ter relações melhores.

No meu círculo de amigos já fui questionada sobre o que penso — e se gosto — de determinada pessoa. Algumas vezes — para espanto do meu interlocutor — a pergunta ficou sem resposta. “Mas ele não faz parte das suas relações e é inclusive membro da sua família”. Sim. Mas, não sei quem é.

Tempos depois, chegou a minha vez de perguntar. Num jantar, diante de um grupo onde eu era uma recém-chegada, questionei sobre uma pessoa específica. A anfitriã, uma experiente psicanalista, foi lacônica: não sei quem é. Confirmou que a pessoa fazia parte do grupo há dois anos, mas que ela não sabia quem era. E eu que até então me considerava uma incompetente social, senti-me absolvida. Aquilo me salvou. Compreendi que afinal não era uma deficiência minha. Há pessoas que não se mostram, ninguém sabe o que pensam ou sentem.

E como a vida segue, recentemente, tive uma experiência oposta. Eis que chega a minha família, via casamento, um novo membro. Soube que o rapaz era muito simpático e; em tempo recorde, foi aceito e aprovado por toda a família. Chego ao Brasil e, em apenas dois dias, eu já sabia quem era e já gostava do João. Observei muito o rapaz. Era confiante e assertivo. Contudo, conheço pessoas com essas mesmas qualidades que não são imediatamente aceitas e integradas. Pelo contrário, são vistas com desconfiança e mantidas à distância.

Passei em revista várias pessoas com o mesmo perfil do afável João e verifiquei que todas têm em comum uma qualidade injustamente negligenciada: a capacidade de verbalizar o que sentem. Quase todas as virtudes humanas, se não forem traduzidas em palavras, podem passar despercebidas. Claro que a ação é importante, mas ela ganha muito mais força acompanhada do discurso pertinente.

E é aqui que começa o caminho. Se você está feliz porque encontrou uma pessoa. Não fique apenas pelo sorriso, diga que está feliz com a sua presença. Não espere que o outro deduza ou decifre o que você sente. Não é possível ser integrado, aceito e, finalmente, amado — anseios de todo o ser humano — se as pessoas não sabem quem você é. Exponha-se. E não é necessário um talento especial para a comunicação, um conteúdo apelativo ou uma maneira rebuscada de falar. Seja simples e direto. Não tenha medo de parecer trivial. O pensador russo Mikhail Bakhtin afirma que a partir do momento em que você diz uma frase, por mais banal que seja, ela é única, porque carrega a sua marca.

Aqui alguns exemplos que, além de facilitar as relações, farão de você uma pessoa muito melhor.

“Gostei de te ver” – No nosso dia a dia, oscilamos entre relações formais e informais. Nas formais reinam uma espécie de inibição para gentilezas e, nas informais, julgamos que elas não são necessárias. Não deveria ser assim. Esqueça as convenções e não tenha medo de elogiar ou de demonstrar afeto. Num encontro com alguém de quem você gosta, não fique apenas pelo “tchau”, diga “gostei de te ver” ou “fico sempre feliz por te ver”. É simples, mas não é pouco. “Gostei de te ver” comunica que você aprecia a outra pessoa, que a sua presença é importante e desperta em você sentimentos positivos.

“Qual é a sua opinião?” – Em tempos de raridade de ouvintes, interessar-se pelo que o outro pensa tem um enorme valor. Além de ser uma via de acesso ao pensamento do outro; mostra que você o considera inteligente e idôneo. Mas atenção: escute o que o outro tem a dizer. Muitos perguntam por cortesia e quando você abre a boca para responder, o outro já mudou de assunto (e, geralmente, o assunto é ele próprio).

“Eu me lembro…” – No reencontro com alguém, resgate um episódio ou uma atitude do passado partilhado. Com esse gesto, você confirma que o outro fez coisas importantes e foram retidas por você. E mais: reforça a crença de que os nossos amigos são também a nossa memória, pois lembram de coisas que já esquecemos. Existe algo mais maravilhoso do que alguém se lembrar de um acontecimento da nossa vida que já havíamos esquecido? Mas atenção: seja positivo. Nada de lembrar que na última vez em que estiveram juntos, o outro estava bêbado feito um gambá. E fuja de quem faz isso com você.

“Bem-vindo” – Há todo tipo de bugiganga doméstica — desde tapetes de entrada até canecas — com o “bem-vindo” ou “welcome”, mas ela é raramente verbalizada. Não tenha medo de parecer teatral. Dizer a alguém que ele é bem-vindo — seja onde for — é como um abraço. A minha primeira vez na cidade de Campos do Jordão foi marcada por uma enorme alegria. Compartilhei muitas fotos com amigos, mas o que eu gostava mesmo de mostrar era a placa de boas-vindas à entrada. Dizia: “Campos do Jordão está feliz porque você chegou”. Achei essa experiência linda e, desde então, sou fã incondicional do “seja bem-vindo”.

“Posso ajudar?” – A disponibilidade para ajudar é quase como um toque de magia. Numa situação de aflição ou incerteza, quem nunca experimentou a sensação de alívio proporcionado por essa oferta irrecusável? Além do seu significado literal e sua demonstração prática de empatia e solidariedade, também tem um poderoso apelo subliminar. Mostra que compreendemos o embaraço do outro, assumimos que também somos desastrados de vez em quando.

“Desculpa” – Hoje o ato de pedir desculpas dificilmente é sinônimo de um arrependimento sincero. Virou uma espécie de figura de estilo e perdeu o sentido. Resgate o seu significado. Primeiro, use-a como demonstração de um genuíno arrependimento e, na sequência, corrija sua atitude. Um pedido de desculpas significa que aceitamos e confiamos no julgamento do outro; que acreditamos que o outro confia na nossa capacidade de sermos melhores.

“Obrigado” – Deve ser usado com frequência e em abundância. O “obrigado” é uma explosão de empatia e demonstra o nosso reconhecimento pela aceitação e generosidade do outro. Espalhe o “obrigado”, expando-o em “muito obrigado” e não poupe ninguém. Não deixe passar nenhuma oportunidade de agradecer… (Ah! Obrigada por ler e partilhar esse artigo).

“Bom dia” – Não subestime essa saudação. O ato de desejar “bom dia” a alguém abriga um vasto conteúdo. Com ele, você diz que viu a pessoa, que não é indiferente a ela, que sabe que ela caminha e que deseja que o caminho dela — pelo menos nesse dia — seja bom. Mas, atenção, muitas pessoas usam o bom dia, como uma formalidade social. Os europeus são mestres nisso. E fazem questão: são capazes de negar uma informação se não ouvirem o “bom dia” primeiro. E a grande prova dessa formalidade, é que eles são capazes de imediatamente após o “bom dia”, serem muito mal-educados.

“Não” – Perca o preconceito dualista do negativo e do positivo e abrace o “não”. Dizer “não” pode ter o mesmo significado benéfico do “sim”. Faz parte do nosso guia de sobrevivência. Devemos dizer os “nãos” sem culpa (e sem pedidos de desculpas prévios). Apesar de todas as frases acima ­— de empatia e gentileza — não podemos perde de vista que a relação com os outros pode ser um lugar perigoso, de abusos e de manipulação. Diga “não” a tudo que ferir a sua natureza, a tudo que desrespeitar a sua humanidade.

Fonte: Vida Simples
Texto: Margot Cardoso

Siga-nos e curta:

O valor da amizade

Minha crença é de que não devemos perder nenhuma oportunidade de fazer mais um amigo.

Cheguei em casa cansado. Só queria relaxar um pouco em frente à TV, zapeando ou assistindo a algo muito leve, como um filme da Sessão da Tarde. Tive sorte. Estava passando Esqueceram de mim 2, aquela comédia ingênua dos anos 90, com o então garoto Macaulay Culkin, e eu me dei conta de que era exatamente esse filme que eu queria rever. Sem compromisso.

Mas o filme não é só engraçado, tem também um lado tocante que faz pensar. Na cena da visita à loja de brinquedos, Kevin ganha do dono, o Sr. Duncan, duas rolinhas que enfeitavam a árvore de Natal, por ter doado 20 dólares para o hospital infantil. Junto com o par de passarinhos de asas abertas, o bondoso senhor lhe recomenda que, quando quiser manter para sempre a amizade de alguém, dê a essa pessoa uma das rolinhas, e conserve a outra. Enquanto ambos as mantiverem, a amizade perdurará.

Gosto bastante de símbolos. Principalmente quando são sobre o amor, a amizade, a alegria ou a esperança, os sentimentos positivos. Aliás, o homem é um animal de símbolos. Precisamos deles. Não foi por acaso que o último livro de Jung, o único destinado ao público em geral, chama-se, exatamente, O Homem e Seus Símbolos, em que ele explora principalmente o simbolismo contido nos sonhos, e diz que “quando a mente explora um símbolo é conduzida a ideias que estão fora do alcance da razão”.

Realmente, os símbolos têm poder, e as tais rolinhas do filme são um símbolo e tanto. Na cena final da película, Kevin, em plena noite de Natal, deixa o conforto quentinho do hotel Plaza, onde finalmente reencontrou a família, e corre para o frio Central Park, onde sabe que encontrará a mulher dos pombos, um ser solitário que tem nas aves do parque e na música do Carnegie Hall a razão de sua existência. Em uma cena hilária, perseguido pelos “bandidos molhados”, Kevin é salvo pela senhora, de quem se torna amigo e confidente. Eles sabem que nunca mais se encontrarão, mas estão certos de que serão amigos para sempre. As rolinhas vão garantir essa união.

Terminado o filme, fiquei pensando sobre as rolinhas. Não as rolinhas de enfeite de Natal, muito menos as aves columbiformes tão comuns em nossos céus. Meu pensamento se voltou para as rolinhas metafóricas que tive a oportunidade de compartilhar na vida, e também aquelas que, distraído, negligenciei.

A lista de “amigos fortuitos” é imensa. Alguns, surgidos no nada, viraram amigos presentes, como o suíço Didier, que é quase um irmão. Com outros a amizade agradável continua a distância, como a Esther e o Mikael, o casal belga que conhecemos em uma pousada da Borgonha, e que vemos raramente. São, ao mesmo tempo, distantes e próximos.

O que nos une é a lembrança daquele encontro, e a imensa quantidade de coincidências filosóficas que fomos descobrindo com o tempo. Outros nunca mais vi, e acho que jamais verei. Como o professor americano sentado ao meu lado em uma viagem entre São Paulo e Belém, que, quando percebeu que eu lia um livro do escritor e bioquímico Isaac Asimov, puxou conversa e transformou aquela viagem em uma jornada excitante pelas maravilhas da literatura.

Esse episódio rendeu até texto por aqui. Lembro dele com admiração e carinho, apesar de não saber nem mesmo seu nome. Acho que todos somos distribuidores de rolinhas pela vida, ainda que a competência para fazer isso nem sempre seja explorada pelas pessoas. Algumas até preferem distribuir corvos, daqueles que arrancam olhos. Que pena…

Minha crença é de que não devemos perder nenhuma oportunidade de fazer mais um amigo. É claro que serão muito variadas as intensidades entre as amizades que fazemos ao longo da vida, mas isso não importa. É muito gostosa a sensação de saber que existe alguém que lembra de você com um sentimento bom, ainda que fugaz.

Li recentemente o resultado de um estudo da Universidade de Brigham Young, nos EUA, que mostra a relação entre a capacidade de fazer amigos e a longevidade. Não só os indicadores da saúde são melhores entre os que cultivam amizades como a recuperação de possíveis enfermidades é mais rápida e segura. Ou seja, até por uma questão de saúde, é melhor distribuir rolinhas do que corvos.

E a novidade boa é que essa qualidade está mais ligada ao hábito do que ao temperamento. Há pessoas sisudas que cultivam uma grande capacidade de fazer amigos, enquanto alegres grandiloquentes não dominam a arte. Não, não se trata de ser simpático, alegre nem atraente. Estamos falando de uma rolinha, ou seja, de uma lembrança positiva. Quantas ideias, em forma de sentimentos ou de análises lógicas foram exploradas neste espaço ao longo destes 15 anos de existência? Quantas vezes, ao desenvolver um tema – e foram muitos – este colunista usou símbolos de vários matizes e intensidades para chegar ao pensamento através da emoção, ou ao contrário? Na verdade, qual foi o caminho não importa. O que vale mesmo é que muitas rolinhas foram distribuídas, e amizades foram construídas entre pessoas que jamais se encontrarão.

Recentemente, ao chegar a Curitiba para uma reunião e, tendo algum tempo, parei no caminho para um café em uma simpática padaria. Mal sentei, uma elegante curitibana que, por acaso, se levantava de uma mesa próxima, ao passar por mim, perguntou se eu era quem era. Quando disse que sim, recebi o presente do dia. Ela lia meus textos todos os meses, e afirmou que eles não só lhe davam prazer mas a ajudavam a pensar sobre os fatos do cotidiano a partir de uma nova perspectiva. Não nos conhecíamos, mas estamos conectados pelas ideias. Pode haver rolinha mais bela? Tomado pela surpresa, não fui cavalheiro como deveria. Não perguntei sobre ela, nem para onde poderia mandar-lhe um livro como agradecimento por sua gentileza. Perdoe-me, amiga. Quem sabe ainda dá tempo…

Não importa se a rolinha é um texto, um livro, uma gentileza, uma palavra certa, um favor oportuno, um presente físico, um elogio ou mesmo uma crítica necessária. O que importa é que algo dessa natureza simboliza e representa a capacidade que temos de ser humanos, em nossa melhor versão.

Fonte: Vida Simples

Siga-nos e curta:

Os dependentes de telas: o “vício sem substância” que começa aos 14 anos

O Brasil tem uma das maiores populações online do mundo: são 126,4 milhões de pessoas conectadas à Internet segundo o IBGE, sendo que quase 25 milhões de internautas são crianças e adolescentes.

Eles não dormem e comem fora de hora. Deixam de tomar banho. Um em cada cinco espanhóis entre 10 e 25 anos sofre de transtornos comportamentais devido à tecnologia. Por trás do vício se escondem, na maioria dos casos, carências pessoais ou problemas de autoestima. Eles chamam isto de vício sem substância. Adrián, de 14 anos, de Cádiz (sul da Espanha), o pegou no verão. Quase sem perceber, passava os dias trancado em seu quarto, quase não comia, e deixou de tomar banho. Sem se comunicar com a família, sua única atividade era jogar no console do PlayStation. “Meus horários mudaram, passava a noite toda acordado e à tarde descansava algumas horas. Quando tinha fome, ia à cozinha buscar mais Red Bull – bebida energética–, fazia alguns sanduíches e pegava um saco de batatas fritas”, conta o jovem. No dia em que seus pais começaram a se preocupar, tiraram-lhe o console, o esconderam no carro e o menino se agarrou a ele de forma doentia, diz Isabel, a mãe. Tiveram de ir a uma delegacia para por fim ao conflito. “Adrián não era mais Adrián, sempre foi carinhoso e agora se comportava de forma violenta.”

Um em cada cinco espanhóis entre 10 e 25 anos sofrem de transtornos de comportamento devido à tecnologia, de acordo com uma pesquisa feita com 4.000 pessoas que será incluída no novo Plano Nacional sobre Drogas do Ministério da Saúde da Espanha. O vício em telas não é considerado uma doença e ficou fora do DSM5, a classificação dos transtornos mentais elaborada pela Associação Norte-americana de Psiquiatria, que atualizou a lista em 2013. A ludopatia (vício de jogar) é o único comportamento viciante reconhecido nesse documento, que associa a dependência principalmente a substâncias: álcool, fumo, estimulantes, maconha e opiáceos.

“Não existe um protocolo para agir nesses casos, o diagnóstico de novas doenças sempre vai a reboque das mudanças sociais. É preciso saber diferenciar entre consumo excessivo e vício, que é quando a pessoa perde o controle e sofre porque, embora queira parar, não consegue”, explica Celso Arango, vice-presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria. Em seu hospital, o Gregorio Marañón, em Madri, o vício em videogames já é o segundo mais tratado depois da maconha, no caso dos adolescentes.

Perda de controle: assim Adrián descreve o que viveu durante dois meses. A família decidiu procurar ajuda quando, no início do ano letivo, foi para o terceiro ano do ensino médio, suas notas despencaram e ele foi reprovado em seis matérias. “Não raciocinava, nos empurrava e esmurrava a parede”, descreve a mãe. Com sessões de terapia familiar em uma entidade dedicada à prevenção e ao tratamento de dependência de drogas (a Asociación Proyecto Hombre) –que em 2013 lançou um programa para jovens viciados em tecnologias de comunicação–, conseguiram deter o problema. Adrián vendeu o console e com esse dinheiro comprou uma mountain bike, um hobby que havia abandonado. A chave para sua recuperação foram as chamadas resoluções, punições ou recompensas por seu comportamento.

“Ao começar o tratamento, o vazio emocional dos jovens é muito grande. Sua vida foi preenchida pelo jogo, pelo reconhecimento de outras pessoas por suas façanhas virtuais. Ao contrário do que acontece com eles na vida real, ali se sentem competentes e os fracassos que possam ter não são penalizados. O que pode ser oferecido a eles que os preencha de forma semelhante?”, reflete Pedro Pedrero, psicólogo desta associação em que Adrián recebeu tratamento, que já atendeu 200 jovens, a maioria meninos de 16 anos. As meninas são 20% do total. “O vício não tem a ver com o número de horas, mas com as consequências”, acrescenta.

Na Espanha, cerca de 90% dos jovens entre 14 e 16 anos dispõe de dois a cinco dispositivos digitais pessoais e 86% reconhecem o uso “muito habitual” do telefone celular, segundo o estudo As Tecnologias de Informação e Comunicação e sua Influência na Socialização de Adolescentes, publicado em janeiro pela Fundação de Ajuda contra o Vício em Drogas.

Por trás do vício se escondem, na maioria dos casos, carências pessoais ou problemas de autoestima. “Se eles se refugiam na tecnologia, é por alguma coisa. É o que chamamos de fenômeno iceberg: o vício é o que vemos, mas por baixo pode haver conflitos familiares, bullying, luto pela morte de um ente querido ou mudança de país”, destaca José Moreno, diretor do Centro de Vícios Tecnológicos da Comunidade de Madri, um serviço público pioneiro na Espanha destinado unicamente a adolescentes inaugurado há um ano e que desde abril de 2018 já ofereceu tratamento psicológico a 124 jovens de 12 a 16 anos. 38% dos casos são provenientes dos departamentos de saúde mental dos hospitais de Madri. Nestes primeiros onze meses, 1.583 pessoas participaram de seus programas de prevenção.

Parte do problema nasce na família. “Com três anos lhes dão o tablet para comer ou para acalmá-los de uma birra. Isso significa ensinar a criança a regular suas emoções através de um aparelho”, diz Moreno. A comunicação é fundamental. “Nós trabalhamos o vínculo. É necessário que os pais acompanhem a criança na terapia, a responsabilidade não recai sobre um único membro, todos devem estar dispostos a mudar”, diz Moreno. Os sinais de alerta são geralmente três: refeições fora de hora, maus hábitos de sono e abandono de responsabilidades. Reconhecer que o adolescente tem um problema é um processo complexo. “Eles têm medo e afirmar que o filho é um viciado é um estigma para as famílias.”

O que as telas provocam no cérebro? “Ao contrário do vício em substâncias, este não deixa uma marca psicológica para toda a vida, pode ser superado com mais facilidade”, afirma Domingo Malmierca, coautor de três guias publicados pela Comunidade de Madri para ensinar a conviver com as telas e membro da Fundação Aprender a Olhar, que trabalha contra os abusos no ambiente digital. Os jovens ficam excitados porque têm um desafio pela frente: ganhar uma batalha ou surpreender em uma conversa no WhatsApp. “Cada acerto representa uma descarga de dopamina, é uma satisfação imediata”, explica o especialista.

O cérebro dos adolescentes é “imaturo” e muito vulnerável a estímulos que podem se tornar viciantes, diz Hilario Blasco, psiquiatra do hospital Puerta de Hierro, em Madri. “Os adolescentes têm menos freios, o lobo frontal –a parte do cérebro responsável pela regulação dos impulsos– não terminou de se formar. Nem todos ficam viciados, os que têm boas habilidades sociais ou praticam mais esportes são mais resistentes”, afirma.

A família deve dar exemplo. “As crianças fazem o que veem, não o que os pais mandam, por isso uma solução é escolher áreas livres de tecnologia dentro de casa e horários. Guardar todos os aparelhos em um armário à noite e evitar que sejam colocados na nossa cama”, adverte Stephen Balkam, fundador do Family Online Safety Institute, uma organização nos Estados Unidos que pesquisa práticas responsáveis no mundo digital. “Ainda não conhecemos as consequências no longo prazo, não se deve demonizar a tecnologia, mas aplicar o bom senso”.

O isolamento é outro sinal. Daniel, de 13 anos, foi à escola três vezes desde o início do ano letivo. Não quer sair de casa e nem encontrar os amigos. Seu lugar é o sofá, na frente do qual tem uma televisão conectada ao seu Nintendo. “Não tenho nada a esconder, meu filho tem um vício de alto risco em telas”, conta o pai, Ángel Gutiérrez, na saída da sessão de terapia semanal de que ele, a esposa e filho participam em Madri. Teme que a Procuradoria de Menores intervenha e lhes retire a custódia por causa das seguidas faltas à escola.

O menino, de cabelos compridos e soltos e um moletom preto, pede ao pai para não dar muitos detalhes. “Ele não tem habilidades sociais e agora estamos examinando sua autoestima, parece que é muito baixa”, conta o pai. Agora eles começaram a administrar as horas de jogo e Daniel está conhecendo garotos de sua idade que estão na mesma situação na terapia de grupo. “A tecnologia é a pior coisa que nos aconteceu, pior do que se descesse um extraterrestre”, diz a mãe, que prefere não dar o nome.

“Muitas das famílias que vêm à terapia são muito disfuncionais; não costumam expressar suas emoções nem sabem dizer não com respeito. Os julgamentos e gritos são uma forma de violência e a educação é a base. Ensinamos-lhes outra maneira de se relacionar”, diz o psicólogo José Moreno. A família é o modelo de referência. O distúrbio não nasce sozinho.

BRASIL: 8 EM CADA 10 CRIANÇAS ESTÃO ONLINE
O Brasil tem uma das maiores populações online do mundo: são 126,4 milhões de pessoas conectadas à Internet segundo o IBGE, sendo que quase 25 milhões de internautas são crianças e adolescentes. Embora faltem estudos que deem uma dimensão da extensão dos problemas envolvendo o uso excessivo de tecnologia no país, sobram indicadores de que este é um tema que preocupa cada vez mais famílias e educadores.

Segundo duas pesquisas de 2018 do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), oito em cada dez brasileiros entre 9 e 17 anos (85%) são usuários ativos da Internet, sendo que o telefone celular é o meio para acessar a rede preferido por 93% –um avanço estrondoso em comparação com os 21% de 2012, E 40% dos professores de escolas de áreas urbanas já ajudaram algum aluno a enfrentar situações “desconfortáveis” relacionadas ao uso da Internet, tais como bullying, discriminação, assédio e disseminação de imagens sem consentimento. A maioria das crianças e adolescente (79%) usam a Internet para trocar mensagens; 77% para assistir a vídeos; 75% para ouvir músicas; e 73% para usar redes sociais.

Já um levantamento da consultoria Deloitte aponta embora 63% dos pais de jovens entre 18 e 24 acreditem que seus filhos usam muito smartphones, e 50% dos pais são autocríticos: reconhecem que também usam muito seus telefones celulares.

Em São Paulo, um programa ligado à Universidade de São Paulo (USP) e ao Hospital das Clínicas atende pacientes que sofrem com variados tipos de compulsão, incluindo dependência de tecnologia e vício em jogos. Há tratamento gratuito para quem tem mais de 18 anos e um teste online: Como sei que sou dependente de internet?

Fonte: ElPais

Siga-nos e curta:

Experimento revela bom exercício para neutralizar emoções negativas

Estudo mostra que desejar o bem para alguém pode fazer você se sentir melhor, mesmo entre os narcisistas.

O que você faz quando está num dia ruim? Algumas pessoas exageram no chocolate, enquanto outras procuram alívio no álcool. Mas cientistas que estudam a felicidade afirmam que existe uma forma bem mais saudável de lidar com emoções negativas: desejar o bem para alguém.

Pesquisadores da Universidade do Estado de Iowa, nos EUA, garantem que a estratégia ajuda a reduzir o estresse e aumenta a sensação de bem-estar em poucos minutos, num artigo publicado no periódico Journal of Happiness Studies.

Eles testaram a hipótese com diferentes grupos de estudantes universitários, que tinham que dar uma uma volta na rua, olhar para alguém e, por 12 minutos, praticar uma das seguintes atitudes:

1) desejar que essa pessoa aleatória fosse muito feliz, tentando realmente sentir aquilo;

2) pensar quais os desejos, sentimentos ou esperanças teria em comum com essa pessoa;

3) pensar como talvez estivesse numa situação melhor que aquela pessoa.

A primeira recomendação, segundo os pesquisadores, é um exercício de amor e bondade. O segundo, de interconexão, e o terceiro, de comparação social. Também houve um quarto grupo, que atuou como controle. Eles tinham apenas que olhar para alguém e reparar nas roupas, cabelo, acessórios ou maquiagem da pessoa.

Todo mundo foi entrevistado antes e depois da tarefa, para que os pesquisadores pudessem avaliar os níveis de ansiedade, depressão, felicidade e empatia.

Os pesquisadores compararam cada grupo e descobriram que o primeiro, que fez um esforço para desejar o bem para alguém, relatou emoções muito mais positivas depois da tarefa. Eles se sentiram mais felizes, conectados e menos ansiosos.

O segundo grupo, que explorou a conexão com o desconhecido, se saiu bem nos índices de empatia. O terceiro grupo, que se comparou com o estranho, não teve nenhum benefício, da mesma forma que o grupo controle, que só foi orientado a reparar na aparência do outro.

A equipe acreditava que a comparação social descendente, ou seja, perceber que outra pessoa pode estar pior que você, poderia trazer alguma vantagem por causa de resultados anteriores. Mas eles descobriram que é basicamente o contrário: a mentalidade competitiva gera estresse e depressão.

Os pesquisadores também avaliaram como diferentes tipos de personalidade reagem a cada técnica. Eles acreditavam, por exemplo, que narcisistas teriam mais dificuldade em desejar o bem para os outros, por isso teriam um resultado pior no teste. Mas o curioso é que não houve diferenciação: todo mundo se sentiu melhor após a tarefa, até os menos empáticos por natureza.

Se você leu este texto até aqui, já deve ter passado pela sua cabeça qual o objetivo por trás da pesquisa. Se pensou no efeito das redes sociais no emocional das pessoas, acertou. Essas plataformas estimulam a comparação num nível que pode estar deixando muita gente doente. Isso acontece sem que as pessoas percebam.

Se você se flagrar com uma ponta de inveja na hora de ver a foto de algum conhecido na rede, experimente a dica dos pesquisadores: interrompa seu pensamento e faça um esforço para o desejar o bem para aquela pessoa. Pode ser que você se sinta melhor.

Fonte: UOL
Texto: Jairo Bouer

Siga-nos e curta: