Está difícil decidir? Use a razão e a intuição, mas nunca o impulso

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE PRECISA SER ASSIMILADA É QUE TODOS NÓS SOMOS MUITO MENOS RACIONAIS DO QUE IMAGINAMOS.

Escolher uma profissão, mudar de emprego, casar-se ou não e escolher um sócio são apenas alguns exemplos de decisões que podem mudar a vida de alguém de forma definitiva. Nessas horas, há quem defenda a precisão científica, que envolve fazer pesquisa e analisar tudo nos mínimos detalhes. Outros acreditam no poder da intuição ou até do sexto sentido.

Para sorte de quem está num impasse, e principalmente para milhares de profissionais que precisam fazer escolhas importantes todos os dias, hoje existe um campo multidisciplinar de estudos dedicados a essa arte. Conheça algumas conclusões e veja se elas podem facilitar sua escolha:

Entenda como você funciona

A primeira lição que precisa ser assimilada é que todos nós somos muito menos racionais do que imaginamos, como bem ensina o psicólogo Daniel Kahneman, Nobel de Economia, no livro “Rápido e Devagar: duas formas de pensar”. O primeiro modo, que ele chama de “Sistema 1”, é o automático ou intuitivo, que surge em menos de um segundo. Quando você lê a frase “1 + 1 = 3”, você na hora percebe que a resposta está errada. “Tudo que repetimos por uma vida, se torna um caminho entre os neurônios que se fortalece, tornando-se um processo automático”, explica a psicóloga Ines Cozzo, consultora especialista em processos de neuroaprendizagem e neurobusiness.

Já se alguém perguntar quanto é 14 x 32, você terá que acessar o “Sistema 2”, que envolve um tempo maior, um cálculo ou análise aprofundada. Você já deve ter pensado rápido que usar o Sistema 2 é a única maneira de evitar erros numa decisão importante. Mas apesar de nos gabarmos do uso da razão, somos muito mais dominados pelo Sistema 1. Isso acontece por causa do viés: todos nós tendemos a pensar ou agir de determinada maneira, dependendo da nossa história, nossa criação e nossas experiências diárias.

Lista de prós e contras sempre
Fazer anotações sobre as vantagens e desvantagens de fazer uma mudança ou contratar determinada pessoa é uma forma de colocar a razão para funcionar. “O exercício da escrita exige que você elabore melhor o conteúdo mental e faça conexões entre as informações”, concorda a psicóloga clínica Nina Taboada, especialista em psicologia cognitivo-comportamental. Mas não esqueça de incluir o peso que cada item pode ter para você.

Não confunda “feeling” com impulso

A tal da intuição, ou “feeling”, até pode ter uma explicação sobrenatural para alguns, mas, segundo os psicólogos, ela nada mais é que um conjunto de pensamentos acessados de maneira inconsciente. É como um caminho não racional para o conhecimento que você acumulou ao longo das suas experiências de vida. “Mas é preciso diferenciar a intuição do comportamento impulsivo”, alerta Taboada. Como fazer isso? A psicóloga tem duas dicas: a primeira é que você precisa estar com a cabeça no momento presente, um estado que é chamado de atenção plena (ou “mindfulness”). Se você tomou a decisão só para se livrar daquilo logo, porque tinha vários outros problemas para resolver, é possível que tenha decidido por impulso. O segundo e principal conselho dela: “A intuição é serena”. É uma certeza que gera tranquilidade.

Ouça os outros e busque o diferente
A psicóloga social Emily Pronin, da Universidade de Princeton (EUA), em parceria com os colegas Daniel Lin e Lee Ross, cunhou o termo “viés de ponto cego” para se referir à dificuldade que todos temos de perceber quando somos tendenciosos, o que já foi verificado em diversos experimentos. De acordo com ela, apesar de não sermos sempre capazes de identificar essa característica em nós mesmos, somos rápidos para apontar um viés nos outros. Por isso, ouvir outras pessoas sempre é uma boa ideia. Mas é importante contar com vozes diferentes e levar em conta os olhares enviesados. […] Tome cuidado, no entanto, com o efeito manada, também chamado de “viés de convergência”. Kahneman ensina, em seu livro, que, em reuniões de trabalho, é comum as pessoas concordarem com o que a maioria diz. Por isso ele sugere que cada um escreva um breve resumo de sua posição num papel antes de cada discussão começar, para manter a diversidade das opiniões.

Post-mortem ou pro-mortem
Quando uma pessoa morre de causa desconhecida, o corpo vai para autópsia e o legista tenta descobrir qual foi a cascata de eventos que levou àquele fim. O psicólogo norte-americano Gary Klein, autor de vários livros sobre tomada de decisão, como “The Power of Intuition” (O Poder da Intuição), é conhecido por um método de avaliação de risco bastante utilizado em empresas chamado “post-mortem”. Ele propõe que, após decidir por um projeto ou uma ação, os envolvidos façam um exercício mental de visualização, como se estivessem diante de uma bola de cristal. Eles devem imaginar que estão vendo o futuro e a decisão deu errado. Então a equipe precisa investigar, como um legista, possíveis causas por trás da falha. O objetivo prever possíveis riscos que não foram levados em consideração antes, quando todos estavam empolgados com a ideia. Mais recentemente, o psicólogo escreveu um artigo sobre um possível complemento para o exercício: incluir uma “viagem ao futuro” para analisar as causas de um suposto sucesso do plano.

2 + 2 nem sempre será 4
Assim como a intuição não é garantia de um final feliz, usar muito a razão, ou seja, pensar e ter dados demais pode atrapalhar, ainda mais quem é perfeccionista. Por isso é bom ter sempre em mente que, na vida, nada é 100% seguro. “É importante procurar mudar a aprendizagem (uma cadeia neural), reforçada pelo modelo escolar, de que para um dado problema só existe uma opção correta, dentre quatro ou mais”, adverte Ines Cozzo. “O segredo do sucesso não está em desvendar o futuro; está em preparar-se para lidar com qualquer futuro, da melhor forma possível, a partir da decisão tomada”, pondera.

Fonte: UOL (Viva Bem)

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