Não fale que “vai passar”: veja como ajudar uma pessoa com ansiedade

Uma ajuda equivocada pode aumentar ainda mais a ansiedade causando mais sofrimento ao indivíduo.

Conviver com a ansiedade é um desafio, pois ela provoca uma tentativa de controle que, muitas vezes, antecipa situações que supostamente podem trazer sofrimento. Existem tipos distintos de ansiedade, desde aquela mais branda que gera maior expectativa, até transtornos classificados como patologia. E uma pessoa em crise de ansiedade pode desenvolver sensações de incerteza, medo e angustia, alimentando um padrão de pensamento que só espera pelo pior.

Nessa hora, não adianta apostar em frases otimistas para tentar estimular a pessoa a reagir. Menos ainda, menosprezar a situação como se fosse algo fácil de ser superado. “Uma palavra faz diferença desde que seja empática. E, às vezes, o que vale mesmo é escutar mais e falar menos”, avisa o psiquiatra Luiz Vicente Figueira de Mello, supervisor do programa de ansiedade do IPq do HC-FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Uma ajuda equivocada pode aumentar ainda mais a ansiedade causando mais sofrimento ao indivíduo, por isso é importante eliminar tudo que, ao invés de ajudar, só atrapalha. Saiba como oferecer apoio na medida certa:

1. Deixe o otimismo de lado

A intenção pode ser boa, mas na hora da crise ninguém está pronto para ouvir frases como “vai passar” ou “tudo vai dar certo”. Este tipo de apoio é irritante, pois o ansioso pode interpretar que o outro está desmerecendo sua dor. Em um momento de crise é muito difícil vislumbrar uma situação positiva, pois tudo parece ser muito difícil. Portanto, evite frases feitas inspiradas em autoajuda.

2. Evite dar um tranco

Definitivamente bancar o durão para fazer o outro reagir não vai funcionar. Este não é o momento. É essencial mostrar apoio, mas sem pressionar. Falar coisas como “Você é forte e vai superar” ou “Precisa enfrentar” só faz o outro sentir-se desvalorizado. Os especialistas entrevistados pelo UOL VivaBem classificam esse tipo de ação como reforço negativo, pois o ansioso irá se sentir ainda mais fraco, e sua autoestima, que já está abalada, ficará pior.

3. Ouça mais

Pode acontecer de o ansioso querer desabafar, escute! Nessa fase, não aposte em avaliações e julgamentos para não causar desmotivação e ele desistir de se abrir. No entanto, não force este diálogo dizendo: “me conta o que você está sentindo” ou “o que está pensando”, pois isso pode gerar mais ansiedade. Respeite o tempo da pessoa!

4. Demonstre preocupação sincera

Independentemente do tamanho da crise, o diálogo deve ser afetuoso. Vale apostar em um “eu entendo você, vamos dar um tempo até que passe, estou aqui com você”. Uma crise de ansiedade dura, em média, 25 minutos, portanto permaneça ao lado demonstrando empatia. Evite, porém, preocupação excessiva porque isso aumenta a ansiedade. Aja de maneira natural, sem transformar o episódio em uma catástrofe.

5. Procure distraí-lo com lembranças boas

É possível tentar desviar a atenção da pessoa, falando sobre algo aleatório ou relembrando coisas boas que já aconteceram ou que estão programadas, como uma viagem, por exemplo. Faça isso com muita atenção para não dar a impressão que está desqualificando aquele momento de ansiedade, tentando apenas desviar o foco. Com sensibilidade dá para notar se deve continuar com essa estratégia. O ansioso vai demonstrar receptividade ou não. Se ele não gostar, simplesmente pare.

6. Convide-o para dar uma volta

Nem sempre o ansioso terá disposição para algum tipo de atividade mais prazerosa, mas vale como tentativa convidá-lo para dar uma volta, fazer uma caminhada leve, respirar um ar diferente. Só não insista! Deixe-o livre para aceitar ou não. E se durante a crise ele não aceitar, diga: “quando você melhorar podemos fazer algo juntos”. Isso mostra acolhimento, pois o ansioso tende a se sentir sozinho. E oferecer qualquer solução pronta de maneira automática pode causar rejeição.

7. Não ofereça uma bebida

O álcool pode até parecer relaxante, mas não é uma boa saída. Pois, sempre que surgir a crise ele poderá associar a bebida como forma de alívio. Tenha cuidado para não criar maus hábitos que não ajudam efetivamente, apenas mascaram o sintoma.

8. Elimine expectativas ou suspenses

Quem convive com alguém muito ansioso precisa ser mais objetivo e assertivo, portanto, evite qualquer tipo de tensão. Não fale “vamos, estamos atrasados” ou “estou com um pressentimento ruim”, pois isso irá poupá-lo de ter uma crise. Outra dica é não marcar compromissos e atrasar, ou demorar para responder mensagens, pois tudo isso pode deixá-lo em estado de ansiedade.

9. Saiba reconhecer uma crise de ansiedade

Isso pode ajudar a prestar apoio no momento em que o ansioso mais precisa: durante uma crise. A agitação física pode ser um dos primeiros sinais: ficar balançando braços e pernas, se estiver em pé, ficar caminhado de um lado para outro, tremor, suor e parecer ofegante. Também dá para notar que algo está fora do ponto pela forma como se comunica, ou seja, sua fala está sempre prevendo algum acontecimento ruim, como: “ele não gosta de mim” ou “não gostam do meu trabalho”. Ao observar esses sinais, aumente a atenção e ofereça ajuda na medida certa.

10. Dicas simples para lidar com a ansiedade

Quer ajudar? Ofereça sugestões práticas e efetivas. Uma é sugerir melhoras no planejamento do ansioso, já que mantendo sua rotina mais controlada pode evitar situações que possam fugir do controle. Neste caso, sugerir uma planilha com compromissos e horários pode deixá-lo mais seguro, sem a sensação de que poderá esquecer algo importante.

A ansiedade também costuma afetar muito o sono, causando mais agitação. Por isso, sugira que ele deixe uma folha e caneta ao lado da cama e, se lembrar de algo importante para o dia seguinte, anote! Ao fazer isso, o ansioso divide sua responsabilidade com o papel e afasta pensamentos recorrentes que atrapalham o sono.

Fonte: UOL
Texto: Simone Cunha

Cuidarte ganha decoração sustentável

A decoração natalina da Clínica de Psicologia Cuidarte, em Teresina (PI), ganhou criatividade e sustentabilidade neste Natal 2019. 1.350 garrafas foram utilizadas para a confecção de peças e enfeites natalinos a partir da reciclagem de materiais que seriam descartados.

O projeto foi realizado pelos artesãos da cidade Ipiranga do Piauí, que há alguns anos se utilizam da mesma ideia para decorar a cidade com esse material.  A decoração levou cerca de quinze dias para ficar pronta – desde a arrecadação dos descartáveis até a confecção de novos enfeites.

De acordo com a diretora da Cuidarte, psicóloga Kyslley Urtiga, a proposta tem como objetivo mostrar para as pessoas que é possível  fazer uma decoração sustentável, preservando assim o meio ambiente.

“Atualmente plástico é um dos grandes violões do Meio Ambiente. Ao apoiarmos um projeto como este, estamos abrindo um canal de comunicação direto com a sociedade para passarmos a mensagem sobre a importância e a necessidade da reciclagem”, pontuou Kyslley.

Clínica Cuidarte

Referência no atendimento psicológico do Piauí, a Clínica Cuidarte possui uma equipe de psicólogos qualificados nas mais diversas áreas de atuação, que reúnem conhecimento e experiência prática na busca da excelência nos atendimentos.

A Cuidarte preza pelo acolhimento, proporcionando aos clientes um espaço de reflexão, escuta empática e autocuidado, fazendo com que a experiência na clínica se torne mais agradável e positiva.

A Cuidarte oferece horário diferenciado aos serviços especializados de psicologia, das 8h às 21h. Além de possuir uma localização privilegiada no coração da cidade, na Zona Leste de Teresina. Av. Homero Castelo Branco, 2676.

 

Como enfrentar o medo de mudança

Nosso cérebro foi projetado para a sobrevivência, não para a felicidade.

A vida é mudança, mas a mudança nos assusta. Às vezes, dá vontade de fazer coro à reflexão de Mafalda: pare o mundo que eu quero descer. A origem desse mal-estar está na biologia. Segundo o arqueólogo espanhol Eudald Carbonell, codiretor das escavações de Atapuerca (Espanha), nosso cérebro é o resultado de 2,5 milhões de anos de evolução. Levamos muito tempo vivendo em cavernas e pouco tempo em cidades. Isso significa que temos “codificadas” respostas automáticas para responder com sucesso às ameaças daquela época. Se agora vemos um leão solto passeando pela rua, nosso cérebro não perderá tempo tentando saber de que subespécie ele é; simplesmente nos mandará sair correndo para sermos mais rápidos – não mais do que o felino, e sim de quem está ao nosso lado (também temos outra alternativa: a de ficarmos congelados, esperando que o leão não nos veja).

No entanto, esses circuitos tão maravilhosos, que nos permitiram chegar até aqui como espécie, não estão preparados para enfrentar ameaças mais sutis, como a digitalização, as mudanças de regulação de um setor ou a possibilidade de ficarmos sem emprego. Esses medos são novos, evolutivamente falando, e por isso nem sempre nos damos bem com a transformação. Recordemos uma máxima importante: nosso cérebro foi projetado para a sobrevivência, não para a felicidade. Diante de mudanças, portanto, temos que encontrar uma forma de navegar por elas, entendê-las como oportunidades e aprender com as suas possibilidades. E isso não é automático como sair correndo ante uma ameaça. Exige esforço, treinamento e capacidade de superar os medos que nos afligem.

A gestão da mudança é hoje mais difícil do que nunca, mas também mais fácil do que no futuro. Por um motivo simples: a velocidade. Para se ter uma ideia da magnitude, há 10 anos tínhamos 500 milhões de aparelhos conectados à Internet. Em 2020, estima-se que serão 50 bilhões; em uma década, um trilhão. Ou seja: estamos só no começo. Isso sem falar do que virá por meio da inteligência artificial, da criopreservação de nossos corpos, dos avanços genéticos e das viagens espaciais. Estamos apenas no início de um tsunami que transformará a forma como nos relacionamos, trabalhamos e vivemos. Portanto, vêm aí mais e mais mudanças. A boa notícia é que nosso cérebro, embora provenha da época das cavernas, tem uma enorme plasticidade que lhe permitiu chegar até aqui e construir toda uma tecnologia que está revolucionando o mundo.

Por isso, temos uma margem de manobra. Vejamos como podemos começar com dicas muito simples.

Primeiro, precisamos de treinos diários da nossa mente. Assim como existem academias para o corpo, devemos colocar em forma o músculo do cérebro. Todos os dias – todos – fazer algo diferente. Ler fontes de informação variadas, ir ao trabalho por outro caminho, experimentar um sabor exótico… o que for. Mas aceite o desafio de fazer algo novo diariamente. A aprendizagem é o melhor antídoto contra o medo.

Segundo, precisamos relativizar o que nos acontece. Um bom método é, paradoxalmente, ler história. Devemos perceber que, embora vivamos no tsunami da mudança, foram justamente todos esses avanços que nos permitiram aumentar nossa esperança de vida e não sofrer por possíveis epidemias ou por guerras mundiais. Na medida em que tivermos perspectiva, poderemos entender a parte benéfica.

Terceiro, devemos buscar a “desdigitalização”. Apesar da velocidade que nos rodeia, precisamos encontrar a conexão com nós mesmos e com o próximo. Se vivermos sempre expostos aos impactos da Internet, não teremos tempo para integrar a aprendizagem e encontrar os oásis necessários a uma certa tranquilidade. Por exemplo, você pode abrir mão do celular no fim de semana ou deixá-lo no modo avião.

Por último, precisamos confiar. Afinal, tudo tem solução – melhor ou pior, mas tem. O que nos asfixiava anos atrás, como a prova do colégio ou um conflito difícil, agora não nos parece tão terrível. E se fomos capazes de driblar situações difíceis, por que não poderemos fazer isso com o que temos agora?

Por isso, na medida em que confiarmos, mantivermos a curiosidade e a aprendizagem, soubermos relativizar e criarmos espaços de paz, poderemos encontrar recursos para contemplar a mudança de maneira mais positiva e construtiva.

Fonte: ElPais/PILAR JERICÓ

Memória como um direito

A forma de contar uma história pode repercutir de inúmeras formas na vida dos sujeitos-alvos das narrativas. Na visão da psicóloga e psicanalista, Joice Silva dos Santos, a memória do povo negro foi usada, ao longo dos anos, como símbolo para uma trajetória de servidão e massacre. E para encerrar o racismo é também preciso que se findem essas narrativas únicas.

“Crescemos acreditando, pessoas brancas e pessoas pretas, que os negros nasceram para a servidão, que nossa história no Brasil começou nos navios negreiros, mas nós não viemos, não brotamos de navios. O acesso à memória vai ser um dos mecanismos de cura e cuidado de uma sociedade racista e colonizada para com o povo negro”, destaca.

Joice afirma que, para isso, é necessária uma atuação em várias frentes. “Precisamos de um movimento social, de um reconhecimento do governo que, de fato, no Brasil existe racismo e que ele possa ser abordado como uma tecnologia de sofrimento e dominação. Para, assim, criarmos técnicas que possam mudar isso. Intervir de maneira focal, mas produzir movimentos macros e micros, que sejam capazes de acionar uma memória que a gente não teve direito”, reafirma.

É nesta perspectiva que a educação contribui de uma forma tão direta para situar as novas gerações com o contato da história para além das narrativas do negro, ligado apenas à opressão e à violência. Ao subverter esses pensamentos, subverte-se, também, a produção de sofrimentos causados pelo racismo. “Precisamos de representação para que a gente possa produzir, de fato, a ocupação real dos espaços de poder. Para que eu consiga me ver de outras maneiras, porque eu crio uma sociedade extremamente racista em que pessoas negras só aparecem na TV enquanto domésticas, empregadas, prostitutas, criminosos, eu estou dizendo para pessoas pretas que é esse o destino delas e estou dizendo para pessoas brancas
que é dessa maneira que elas devem nos enxergar. E não vamos aceitar mais isso”, finaliza.

Fonte: Jornal O Dia/ Glenda Uchôa

Como a internet pode estar transformando nosso cérebro

Segundo um estudo, quem não sai da internet faz muitas coisas, mas não se fixa a nada.

Acordei há alguns dias com quatro coisas na cabeça: queria desejar feliz aniversário a uma amiga, não podia esquecer de pagar uma conta, precisava consultar a bula de um remédio e assistir a um trecho de um documentário antes de dar uma aula. Menos de uma hora depois, todas as tarefas estavam cumpridas. E eu ainda estava na cama. O milagre se chama internet. Não há dúvida de que a rede revolucionou a nossa forma de fazer quase tudo, da busca por informações à maneira como nos relacionamos uns com os outros. Mas há índicos de que o impacto dela nas nossas vidas seja bem maior do que esse.

Pesquisadores de nove universidades, entre elas as respeitadas Oxford e Harvard, decidiram avaliar o que já se sabe com alguma consistência acerca do impacto da internet sobre nossa cognição —o processo de aquisição, armazenamento e interpretação dos estímulos e das informações.

A conclusão é, no mínimo, um alerta: a rede parece estar mudando a estrutura anatômica e o funcionamento do nosso cérebro. E isso estaria acontecendo, principalmente, nas regiões associadas à atenção, à memória e às habilidades sociais.

As primeiras pistas sobre essas mudanças, segundo a análise recém-publicada, surgiram há uma década. Em 2009, uma pesquisa da Universidade de Stanford contrariou as expectativas e mostrou que estudantes que faziam uso excessivo da internet e nela realizavam diversas atividades ao mesmo tempo tinham desempenho pior ao realizar múltiplas tarefas no mundo real do que jovens com poucas horas de navegação.

A “prática extra”, portanto, não se converte na habilidade de resolver sucessivos desafios que exijam atenção sustentada. E uma análise mais detalhada desses achados sugere que isso se dá porque os internautas convictos são mais suscetíveis à distração por estímulos ambientais irrelevantes.

Cinco anos depois a mesma Stanford, junto com a Universidade de Boston, trouxe uma possível explicação para a desatenção que parece afetar o grupo que não sai da internet: eles fazem muitas coisas, mas não se fixam a nada. O tempo médio para que pulem de uma página para outra é de míseros 19 segundos. E 75% do conteúdo exibido fica menos de um minuto na tela.

Nos anos seguintes, comparações entre resultados de exames de ressonância magnética funcional mostraram que pessoas que declaram usar a rede “sempre” ou “na maioria do tempo” têm menos massa cinzenta nas regiões do cérebro associadas ao foco, à persistência e à manutenção de metas. Ao mesmo tempo, essas pessoas, diante de um estímulo capaz de distraí-las, ativavam muito mais essas regiões cerebrais atrofiadas _o que pode ser traduzido como um esforço adicional para tentar manter a atenção.

Estamos perdendo o foco e também a memória. É como se a facilidade de acesso às informações tivesse nos libertado da necessidade de armazená-las.

Um estudo experimental feito com 50 voluntários constatou, inicialmente, o óbvio: aqueles que usam a internet localizam as informações mais rapidamente do que os que recorrem às enciclopédias impressas. Horas depois da busca, porém, os internautas têm mais dificuldade de se lembrar do que pesquisaram.

A explicação, mais uma vez, aparece nos estudos de imagem feitos no cérebro desses voluntários enquanto eles faziam uso dos livros ou dos sites de busca. Os exames mostram que a coleta de informações online, embora mais rápida, não recruta na mesma intensidade as regiões cerebrais responsáveis por armazenar informações a longo prazo.

Não, não! Não desligue o computador.

O mundo está online! E a tecnologia digital já é parte irreversível da vida. A internet facilita todos os dias nossa busca por informações, agiliza nossas compras, aumenta nossas possibilidades de lazer e até faz cruzar a nossa tela, quando a gente menos espera, a foto daquele amigo querido.

O problema, definitivamente, não é a internet. É o uso que fazemos dela.

Paracelso já dizia, lá no século 16, que a diferença entre o remédio e o veneno é apenas a dose.

Sílvia Corrêa
É jornalista e médica veterinária, com mestrado e residência pela Universidade de São Paulo.
Fonte: FDS

O uso prolongado de computadores e celulares afeta o seu sono desta forma

Tecnologia transformou o significado dos sonhos, fazendo da noite uma espécie de dia virtual.

Os sonhos são a paisagem do nosso mundo interior. Enquanto dormimos, nossa imaginação transforma o real, e dessa maneira nos dá um contexto para a experiência diurna. A mente, em sua agitação noturna de imagens e histórias, cria um incessante jogo de esconde-esconde com os sentimentos, com a memória e com nossos interesses e preocupações do dia. Apesar de serem intrinsecamente ambíguos e estarem abertos a múltiplas interpretações, os sonhos têm uma gramática que nos oferece um panorama da arquitetura da mente e das camadas entretecidas de elementos psicológicos que a compõem. Nelas, a atualidade e as vivências do passado recente e remoto convergem em formas notavelmente fluidas.

Sigmund Freud observou que uma das propriedades do inconsciente é a tolerância às contradições. Elas aparecem com frequência nos sonhos e nos mostram uma habilidade especial da mente para associar coisas que aparentemente carecem de características comuns. O sonho cria novas categorias que de outro modo nunca teríamos notado. Isso não é raro, é parte de sua estranheza comum. Já aconteceu com todos nós: como quando sabemos nesse estado que alguém é o nosso melhor amigo, mesmo que não se pareça com ele. Em outras circunstâncias, insistiríamos em corrigir o mal-entendido, mas não aqui. O sonho é uma experiência subjetiva fora do nosso controle, que nos oferece uma apreciação da interação íntima entre nosso mundo interior e o mundo social em que nos locomovemos.

Por este prisma podemos penetrar nos mistérios da mente e em sua relação com a cultura e a tecnologia. É extraordinário que Freud descobrisse esta chave nas atividades mentais de uma pessoa adormecida. Os sonhos como guia do inconsciente foram a base de suas teorias sobre os pensamentos reprimidos, que afloram enquanto dormimos. O professor de psicologia Daniel Wegner, de Harvard, sustenta que essa descoberta de Freud cria uma ponte com os avanços atuais das neurociências cognitivas. Estudos de imagens cerebrais confirmaram: a desativação da função inibitória da área pré-frontal do córtex cerebral durante o sono permite liberar os pensamentos que foram suprimidos durante a vigília e que contêm fatos relacionados com a memória reprimida.

A maioria das pesquisas do sono concorda que ele promove o processamento cognitivo e contribui para a plasticidade cerebral. E que a falta de sono altera a transmissão de sinais no hipocampo, que é a área do cérebro onde se processa a memória em longo prazo. Estas observações foram confirmadas em outras espécies. Os estudos com moscas Drosophila realizados por Jeff Donlea e seus colaboradores da Universidade de Washington mostram que o sono não restaura apenas a capacidade de aprendizagem, mas também melhora a duração das lembranças.

Entretanto, apesar do papel central dos sonhos nos processos mentais, seu significado veio se transformando sob o efeito da tecnologia, porque ela tem a capacidade de nos desvincular do nosso mundo interior. As imagens desses contextos empalidecem em comparação às da realidade aumentada à qual estamos constantemente expostos por meio dos dispositivos inteligentes. É como se fôssemos absorvidos por uma corrente de sonhos pré-fabricados. Fica difícil neutralizar a sobre-excitação que eles causam em nosso cérebro. O uso prolongado do computador, do celular ou da televisão altera o ciclo do sono e transformou a noite praticamente em um dia virtual. Por outro lado, ao ligá-los imediatamente depois de acordar, os sonhos e suas ressonâncias diurnas são deslocados pelas imagens digitais, que disputam nossa atenção e acabam nos seduzindo.

Não obstante, os sonhos continuam sendo a realidade virtual original. São uma experiência intensamente pessoal, e por isso extremamente relevante. Mantêm nossa mente aberta a perguntas nunca antes formuladas, permitem explorar tabus e a falta de sentido, sem que ninguém nos observe nem nos julgue; dão uma imagem a situações que geram ansiedade e a eventos traumáticos, o que ajuda a processá-los. Enquanto sonhamos, nossa experiência noturna nos induz a vislumbrar o vasto reino da imaginação e do pensamento criativo. Como afirma o psicanalista Thomas Ogden, os sonhos permitem brincar livremente com as ideias fora do entorno do controle consciente. Esta liberdade de sonhar é possível graças à proteção da privacidade.

Para o nosso cérebro, o simples fato de ter sonhado já é suficiente, mas aqueles que de vez em quando recordamos podem nos beneficiar significativamente em nossa vida diurna e nos ajudar a refletir sobre seu conteúdo. O que está em jogo é uma conexão essencial com nosso mundo interior. Que pensamentos vêm à mente? Que emoções provocam? O que pode ter precipitado o sonho daquela noite? E se ao despertar a lembrança se evapora, não é preciso se preocupar. De fato, só recordamos cerca de 10% deles. Pense que, afinal de contas, são apenas sonhos.

*David Dorenbaum é psiquiatra e psicanalista.
Fonte: ElPais

Inteligência é flexibilidade

As melhores decisões são aquelas que mantêm mais portas abertas.

Meus cursos de neuroanatomia começam sempre com uma discussão aberta com os alunos até chegarmos a uma definição, empregada no restante do curso, sobre o que é comportamento: qualquer ação que pode ser observada e descrita. Bactérias, fungos, amebas e quaisquer outras células que se movem em direção ao alimento, ou umas às outras, ou se dividem e seguem seus rumos respectivos, exibem comportamento. Se não é preciso ter cérebro para ter comportamento, então para que serve trazer um na cabeça?

Ando pensando um bocado a respeito, por conta da preparação de artigos, livros, aulas e palestras para leigos interessados em neurociência, e cheguei a uma conclusão que finalmente me deixa satisfeita: um cérebro dota o comportamento de flexibilidade. Eu costumava acrescentar “complexidade” à lista, mas até ela cabe na conta da flexibilidade. Eu explico.

Cérebros são feitos de neurônios, células que ativam umas às outras espontaneamente mas também ao sabor dos acontecimentos, e portanto sua atividade representa eventos. Mas não é só isso: toda atividade de um neurônio modifica sua atividade futura, inclusive como ele reagirá a novos eventos. Ou seja: neurônios guardam uma memória do seu passado. Com isso, ações no presente são sempre temperadas pelas ocorrências do passado de cada um, e dois seres dotados de cérebro, ao contrário de duas amebas, podem reagir de modos diferentes ao mesmo evento.

Mas essas memórias também podem ser evocadas (como lembranças) ou mesmo antecipadas (como previsões) —e assim o passado cria um futuro, que passa a servir de norte. Pronto: tem-se a base do comportamento flexível, que leva em conta não só o presente mas também o aprendizado passado e as possibilidades vislumbradas para um futuro que depende da ação tomada.

Flexibilidade para valer, contudo, é o que se ganha com um córtex cerebral, com sua circuitaria maleável que nos permite novas associações e assim gera possibilidades sobre possibilidades. Xadrez mental só joga quem tem um cérebro, e de preferência um córtex cerebral cheio de neurônios.

Se decisões inteligentes são aquelas que mantêm o maior número de portas abertas —minha definição favorita, do físico Alex Wissner-Gross—, então a essência da inteligência é a flexibilidade: de decisões (conforme o passado), de opiniões (conforme novos fatos), de desejos (conforme os futuros vislumbrados). Ser inteligente é ser flexível, e se manter flexível.

Suzana Herculano-Houzel
Bióloga e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA).
Fonte: FSP

A importância de se ter amigos e como mantê-los sempre perto

Ter amizades sólidas é tão importante que estudos mostram que a falta de amigos é comparável a problemas provocados por obesidade, abuso de álcool e consumo de 15 cigarros por dia.

“Eles são a família que escolhemos”, diz o ditado popular. E é isso mesmo: além da família, os amigos são as pessoas com quem vamos estabelecer vínculos mais significativos e duradouros durante a vida. E, em cada etapa dessa jornada, eles têm um papel importante para o nosso desenvolvimento psíquico e social.

“Enquanto na infância eles ajudam na socialização do indivíduo, na adolescência eles são importantes para ajudar o indivíduo a construir sua identidade e formar uma imagem de si”, explica a psicóloga Natália Tavares Pavani Araújo, psicóloga do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. “Já para os idosos, eles são fundamentais para combater a solidão, o que pode influenciar até mesmo na saúde dele.”

Sim, ter amigos é fundamental para viver uma vida mais saudável e até mais longa —e há inúmeros estudos a respeito disso. Por exemplo, uma revisão de 148 estudos feita nos Estados Unidos por especialistas da Brigham Young University e da University of North Carolina mostrou que pessoas com amizades sólidas tinham 50% mais chances de sobrevivência.

Mais que isso: os autores concluíram que os efeitos da falta de amigos são comparáveis aos problemas provocados pela obesidade, pelo abuso de álcool e pelo consumo de 15 cigarros por dia.

Mais recentemente, um estudo da American Cancer Society concluiu, após analisar dados de mais de 500 mil adultos, que o isolamento social aumentava os riscos de morte prematura por qualquer causa.

As amizades também são fundamentais para que possamos externalizar sentimentos e demonstrar afeto e amor, o que é fundamental para a nossa saúde mental. “É um tipo de relacionamento que nos ajuda a ser mais humanos em nossas vidas”, afirma Cristina Borsali, psicóloga da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo

Seja no trabalho, na escola ou na vida, fazer conexões é algo tipicamente humano —como seres sociais que somos, precisamos dessa interação para nos sentirmos validados e acolhidos. “Eles são a nossa biografia viva, são testemunhas do que vivemos”, diz Araújo.

Ao longo da vida, no entanto, é comum que os caminhos sigam por rotas diferentes e muitas amizades fiquem no passado. Em 1993, o antropologista Robin Dunbar, da Universidade de Oxford, ficou famoso por dizer que, cognitivamente, cada pessoa seria capaz de ter, no máximo, 150 relações sociais estáveis —o dado ficou depois famoso e conhecido como “número Dunbar”.

Mas o próprio Dunbar reconheceu, anos depois, que as redes sociais poderiam ser responsáveis por aumentar esse limite, permitindo uma maior interação com pessoas com quem falaríamos pouco por conta de questões geográficas, por exemplo.

Seja como for, a amizade, como qualquer relacionamento, também precisa ser cultivada para que permaneça viva. Confira a seguir algumas formas de ter seus amigos em sua vida por mais tempo:

Mantenha contato

Parece óbvio, mas, na rotina corrida que levamos, é bastante comum deixarmos para marcar um encontro, fazer uma ligação ou mesmo enviarmos uma mensagem para depois —só que esse depois nunca chega. “Ambos têm que investir na relação e isso inclui abrir espaço na agenda para um café, um momento para conversar, desabafar ou pedir conselhos”, diz Araújo.

O(a) amigo(a) mora longe? Agendem uma conversa pela internet ou marquem de se falar ao telefone em algum momento em que os dois possam dialogar com calma. Tente fazer isso de forma regular sem esperar um grande motivo, pois isso pode demorar a acontecer.

Conecte-se emocionalmente

Uma vez que vocês tenham marcado um momento para conversar, esteja lá. Isso quer dizer deixar o celular de lado e voltar toda a atenção para aquele momento. “Preste atenção ao que a pessoa está falando naquele momento e seja empático”, diz Araújo.

Além de mostrar que se importa com a vida da pessoa, você ainda cria um ambiente de acolhimento. “Nós precisamos abrir e até rir de nós mesmos, e só fazemos isso quando nos sentimos confortáveis”, explica a especialista.

Participem da vida um do outro

Estar próximo é essencial em uma amizade, especialmente quando estamos celebrando algo importante —e queremos dividir a emoção do momento— ou vivendo um momento difícil —e precisamos saber que não estamos sozinhos.

É o que uma pesquisa da Universidade de Puget Sound, nos EUA, chamou de “apoio à nossa identidade social”. Ou seja, queremos amigos que entendam quem somos e validem nossa importância na sociedade, aumentando nossa sensação de pertencimento e favorecendo a construção da autoestima.

“Estar presente não é apenas comemorar o aniversário ou apoiar um luto”, explica Borsali. “É preciso compartilhar mais momentos pelo simples fato de gostar daquela pessoa, da companhia dela”, diz.

Conserve o respeito e a confiança

Se o amigo fez algo que desagradou ou está passando por uma fase problemática, não vá falar mal da pessoa para outro colega. “Um dos princípios básicos da amizade é a lealdade e a sensação de proteção que esse relacionamento gera em nós”, diz Bosali. “Se aconteceu alguma coisa desagradável, o melhor é procurar o amigo para conversar, demonstrar preocupação e abrir o jogo sobre como aquilo o fez se sentir”, acredita a especialista.

Isso também vale para quem acha normal espalhar fofocas ou sair contando os problemas ou segredos que foram confiados a você. Do contrário, você corre o risco de fazer com que o amigo se sinta traído.

Mantenha o coração aberto mesmo nas discussões

Desentendimentos são absolutamente normais, especialmente em amizades muito longas. Nesse momento, vale respirar fundo e tentar conversar para chegarem a um acordo. Vale ainda focar no que importa: o carinho e os bons momentos que passaram em toda a história de vida juntos.

“Quando divergimos, tendemos a desqualificar qualquer coisa que a pessoa fale”, afirma Araújo, que reforça a importância de sermos mais tolerantes e saber ouvir os argumentos do outro de coração aberto. “Não existe relação em que duas pessoas concordam 100% das vezes”, diz.

Esse exercício é um dos motivos que tornam a amizade fundamental para o desenvolvimento psicológico do ser humano. “Isso gera um amadurecimento pessoal muito importante”, afirma Bosali.

Fonte: UOL
Edição: C.S.

Saiba lidar com as incertezas

Já faz algum tempo que atuo como jornalista autônoma, sem carteira assinada. Por isso, estou em constante atualização da caixa de entrada para saber se há novos e-mails com encomendas de texto. Estar à mercê das propostas de trabalho e fora de um ambiente controlado faz com que, entre uma reportagem e outra, exista incertezas em abundância acompanhadas de seu derivado mais comum, a ansiedade.

O exercício diário é entender, com paciência e confiança, que esse é um processo nem um pouco definitivo e cheinho de múltiplas possibilidades. Como ainda estou aprendendo com esse cenário onde prevalece a ausência das certezas, quero aproveitar esse ponto em que nada é certo para começar a trilhar o texto que segue.

Em um ano de tantas mudanças nos diversos cenários, ao nosso redor e no universo particular, o ensinamento mais presente é de que é preciso saber lidar com algo intangível. O fato de que nada é totalmente certo. Afinal, apesar do falso controle sobre o plano das coisas previstas, a certeza é algo que escapa a todos, como um amontoado de dentes-de-leão já assoprados. E tudo bem. Mesmo.

Imprevisibilidades em alto grau

O movimento das incertezas tem um fluxo contínuo. Na maior parte do tempo se comporta de forma sutil e delicada, mas às vezes se faz abrupto, impondo-se a nós. Não é assim?

A verdade é que temos de lidar, percebendo ou não, com um alto grau de imprevisibilidade o tempo todo, desde as incertezas mais duras de encarar aquelas miudezas do dia a dia, que também nos fazem sofrer. Grávida do primeiro filho, a escritora e cantora Olivia Byington preparava um quarto com lençóis de linho branco para o berço e bordados feitos à mão.

Mas as coisas não aconteceram de acordo com o roteiro preestabelecido e ela precisou superar algo inesperado. O primogênito nasceu com síndrome de Apert, uma desordem genética que causa um desenvolvimento anormal da caixa craniana, entre outros problemas. A aparência de João não era de um bebê perfeito, como almejava Olivia. “Foi triste entrar no quarto que havia sido preparado para ele viver o dia a dia de uma nova realidade que contrariava todos os sonhos e as expectativas cultivadas nos meses anteriores. Eu dava um passo de cada vez na direção de aceitar, compreender e amar o novo filho imperfeito, o novo destino”, escreve ela.

A história de Olivia e João é contada em O Que É Que Ele Tem (Objetiva), onde ela descreve medos, aprendizados e a caminhada de incertezas.

Algo que não se pode prever

Outro exemplo é o da escritora Joan Didion e seu bonito relato em O Ano do Pensamento Mágico (Nova Fronteira), no qual ela divide com o leitor a morte do marido. Joan fala sobre o “instante comum” em que tudo se transforma: “A vida muda num instante. Você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente”, escreve ela. A morte talvez seja a incerteza em sua forma mais radical. Nela cabe a contradição de que o nosso fim está previsto, mas, ao mesmo tempo, não se pode prever.

Dar um passo de cada vez na direção de aceitar e compreender, como descreve Olivia em um trecho cheio de delicadeza já nas primeiras páginas de seu livro, talvez seja a melhor solução para os casos em que as incertezas surgem de maneira tão dilacerante: “Eu passava horas numa cadeira de balanço, com a luz apagada, pensando no porquê daquilo tudo, me sentindo escolhida, com um estranho presente do destino no colo que eu não sabia que fim teria. Começava a me dedicar a ele como qualquer mãe se dedica a seu filho. Num cotidiano bem diferente do planejado. Eu estava em construção. Estava diante do mistério da vida. Sem saber, eu já fazia parte da grande comunidade de pessoas fora do padrão, com a chance de arregaçar as mangas e buscar a alegria de novo”.

Incertezas no dia a dia

As incertezas, claro, não são sempre extremas, feitas por rompimentos que nos colocam em terreno desconhecido. Existem outras pequenas expressões de sua presença com as quais precisamos também aprender a conviver. Repare bem. Enfrentamos uma sequência de “ses” em considerações que nos põe em dúvida e deixa a sensação de estagnação ou impotência – pode ser o país e suas indefinições o que nos preocupa, o emprego instável, o dinheiro que talvez não dê para o mês, um relacionamento de inseguranças ou o corriqueiro “o que fazer agora?” das mais diversas situações.

A soma dessas incertezas externas, mesmo quando passam despercebidas ou não são processadas em sua inteireza de forma consciente, exerce grande influência em nós, estabelecendo uma intensa troca de sensações que acaba afetando não apenas a gente mesmo mas as pessoas ao redor. “Há uma vertigem na incerteza que assusta e por isso podemos querer fugir dela”, comenta Mauro Amatuzzi, filósofo, psicólogo e doutor em educação. “Mas, se suportamos o incômodo, ela pode abrir caminhos e oferecer criatividade, porque passa pela sensibilidade aos sentidos”, completa ele sobre a oposição entre uma realidade que julgamos conhecer e outra em que predomina o desconhecido, mas que pode significar liberdade em potência e fazer brotar daí inspirações bacanas para seguir em frente. Ou seja, encarar tempos ou situações de incerteza é também saber aproveitar as oportunidades que a vida nos dá para fazer diferente.

No entanto, é preciso coragem para enfrentar esse vazio, “o espaço da liberdade” onde o voo acontece, em vez de preferir as gaiolas, “o lugar onde as certezas moram”, conforme recomenda o escritor Fiódor Dostoiévski em seu romance Os Irmãos Karamázov (Editora 34). Não há o que temer se estivermos abertos para reconhecer a energia construtiva nessa aparente fragilidade do desconhecido, e seguir “apesar de”.

Os dias se sucedem uns aos outros

Mas por que tememos aquilo que não é certo? Porque aprendemos a olhar a vida desse jeito. O enredo que nos contam é de que é preferível perseverar em busca de uma certeza absoluta em vez de aceitar a natureza da vida, incerta em essência. O detalhe que excluem dessa narrativa é que ocupar um lugar bem distante da zona de conforto pode ser positivo à medida que nos impulsiona a encontrar recursos dentro da gente para lidar com as novas situações.

Afinal, a realidade é feita da convivência com as impermanências que surgem numa alternância desassossegada: assim que nos satisfazemos com a resolução de alguma questão que nos atormenta, logo vem outra pedindo a nossa atenção. Para complicar só mais um pouco, os questionamentos geralmente não vêm em fila, cada um por vez, mas vão se apresentando de forma aleatória e nos submetendo a seu ritmo caótico. Então, mais uma vez, precisamos ser flexíveis e nos dedicar à adaptação a uma nova ordem recém-estabelecida que vai durar só até a próxima novidade que já vem chegando.

Incertezas e a modernidade líquida

Esse tipo de sensação de que nunca estamos pisando em chão firme, pois haverá sempre uma nova instabilidade, é objeto de interesse do sociólogo Zygmunt Bauman. Aposentado, ele se debruçou na teoria do que chamou de modernidade líquida, esta condição de mudança constante à qual estamos sujeitos e que nos afeta diretamente porque traz consigo o sentimento de não sabermos o que surgirá em seguida.

Tudo é fluido, frágil e instável. E isso tem a ver com o consumismo, com o menor envolvimento nas relações, num excesso de individualismo. Conforme escreve: “Nós somos responsáveis pelo outro, estando atentos a isso ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo, e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossa vida”.

Numa interpretação livre, tendo a acreditar que uma das chaves para lidar com as incertezas seja, provavelmente, ir na contramão disso e nos aproximarmos uns dos outros, o que trará novamente a sensação de que não estamos sozinhos e que podemos atravessar tudo isso juntos.

Empatia com o novo

Fábio Mariano Borges, sociólogo especializado em cultura e comportamento, fala sobre um ciclo natural que intercala fases de aquecimento e euforia com etapas de estabilização, de frequências diferentes. Para ele, “o período atual é de intensas transformações num cenário que pode ser alterado a qualquer instante”, em aspectos econômicos, culturais, sociais, políticos, ambientais e até mesmo emocionais, o que gera “a única certeza de que tudo é incerto”.

Para atravessar esse período, ele sugere que a gente reconheça a instabilidade a partir de uma atitude de empatia e de compreensão diante do novo, com reflexões mais cuidadosas sobre os nossos valores e comportamentos e o cultivo de uma relação mais generosa com o outro.

Como insiste Borges, “as fórmulas antigas não funcionam mais”. Foi nesse momento que surgiu, por exemplo, o projeto Imagina.vc, um espaço que instiga as pessoas a experimentar novos modelos de mundo. Na prática, a plataforma virtual sugere temas considerados incômodos, como aborto, maioridade penal, cyberbulling ou representatividade negra na infância.

O objetivo é trazer esses temas à tona e pensar em caminhos práticos para modificar a situação. Isso é feito através de textos produzidos por especialistas na área, conversas ao vivo e outras propostas que surgirem. O que o Imagina.vc faz é provocar “o potencial de transformação das pessoas” redirecionando a energia para as ações concretas e assim mudar o que não está legal.

Futuro de incertezas

Mas será que vamos ter de andar sempre nessa corda bamba? Calma, não é bem assim. Existe um momento em que tudo ganha nova forma e você volta a se sentir seguro ou confortável.

Nassim Nicholas Taleb, pesquisador e financista, autor de A Lógica do Cisne Negro (Record), elaborou uma teoria para explicar as características em comum desses momentos extraordinários que acontecem de supetão, como reviravoltas, crises ou até mesmo tragédias: são “inesperados” (nada do que aconteceu antes apontava para essa probabilidade); têm “grande impacto” (nos encontram desprevenidos e capturam a nossa atenção); e geram “explicações” (pelo temor da incerteza, eventos assim exigem argumentos que os justifiquem). Cisnes negros são mais comuns do que podemos supor. Se prestarmos atenção, podemos em breve testemunhar um deles.

Afinal, o momento de poucas certezas, sobretudo no cenário político e econômico, quando tudo parece tão inacabado, pode significar a construção de uma nova realidade. Ainda não conseguimos antecipar, mas seguramente está em andamento – é que as mudanças estão em curso antes de serem percebidas como resultado.

Além disso, a rotina embaça a nossa capacidade de enxergar. E, então, só a partir de certa perspectiva sobre os fatos, responsável por dar-lhes sentido, é que vamos conseguir reconhecer a nova ordem das coisas.
A beleza está, enfim, na disposição em seguir mesmo não conhecendo o fim da história. Ou seja, continuar mesmo tendo de lidar com as incertezas do caminho e tentando encontrar propósito no cotidiano.

Amanhã há de ser outro dia

A arte contemporânea também está preocupada em refletir sobre as atuais condições de vida. O tema de uma Bienal de São Paulo foi exatamente sobre isso, Incerteza Viva. A apresentação assinada pela curadoria diz que as artes “sempre jogaram com o desconhecido”, considerando a intervenção da incerteza nesse processo ao explorar a imaginação, a criação, a ambiguidade e a contradição como narrativa: “A arte se alimenta do acaso, da improvisação e da especulação. Ela dá espaço ao erro, à dúvida e cria brechas mesmo para as apreensões mais profundas, sem evitá-las ou manipulá-las”.

O cientista social Rafael Araújo, que pesquisa arte e tecnologia, ressalta a naturalidade da imprevisibilidade. Já que “a arte está sempre atrelada à sua época e busca refletir a dinâmica das incertezas na atualidade” e, em síntese, fala sobre “a concepção da condição humana”.

A convite da Bienal, o escritor Mia Couto preparou um texto para o material educativo com o título Escrever e Saber. E nesse texto ele explora a ideia de que escreve justamente porque não sabe e confessa gostar dessa “certa ignorância”. “A construção de uma narrativa implica estar disponível. E para estar completamente disponível há que deixar de saber, há que deixar de estar ocupado por certezas. […] Esse tempo primordial de indefinição, essa travessia pelo desconhecido é um dos mais saborosos momentos do labor da escrita. Esse é o momento divino em que tudo pode ainda ser”, declara. “Talvez seja hoje necessário fazer um elogio faccioso a favor do que é incerto. Ao fim e ao cabo, a incerteza é um abraço que damos ao futuro. A incerteza é uma ponte entre o que somos e os outros que seremos”, completa ele.

Não podemos controlar tudo

Ao expandir a nossa percepção, talvez a gente aprenda que os resultados nada mais são do que a intensa elaboração de suas partes, uma a uma. Coisas acontecem apesar de a gente querer ou não. Não há como controlar isso.

Mas, para reconhecer a inteligência por trás dos acontecimentos e aprender a apreciar a beleza do mistério, é preciso não se apegar tanto na ordem pretensamente estabelecida pelo controle. E, assim, aceitar a liberdade que a incerteza, obstinada, está disposta a nos oferecer a cada dia. “Vamos?”, ela nos convida, sem antecipar o destino.

Sem o inconveniente das certezas desajeitadas, conseguimos finalmente perceber que a sucessão dos dias está em plena atividade e o quanto tudo isso pode nos surpreender e trazer as repostas que tanto buscávamos. As surpresas que nos cabem estão sempre à espreita.

Fonte: Vida Simples
Texto: Laís Barros
Edição: C.S. 

Estamos programados para a preguiça

Exercício é saúde, mas as campanhas que nos encorajam ao movimento não têm resultados espetaculares. Por que nos custa tanto estar fisicamente ativos mesmo quando temos a intenção de fazê-lo?

Se você tem dificuldades para se levantar do sofá e realizar uma atividade física, não se preocupe, não é o único. Há décadas, vemos campanhas de comunicação que nos encorajam a fazer exercício. Por volta de 30% dos adultos, entretanto, não realizam atividade física suficiente. E a porcentagem só aumenta em todo o mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 3,2 milhões de óbitos são atribuídos à falta de atividade física todos os anos, o que significa uma morte a cada 10 segundos. Esse fato coloca uma pergunta: por que somos incapazes de ser fisicamente ativos mesmo tendo a intenção de fazê-lo?

O conflito entre a razão e as emoções

Para explicar essa luta que ocorre entre nossas intenções saudáveis e os impulsos contrários, foram criadas teorias científicas como os modelos de processos duplos. Nesses modelos, os mecanismos que explicam nosso comportamento se dividem em duas categorias: os mecanismos racionais, geridos pelo sistema reflexivo, e os mecanismos emocionais, regidos pelo sistema impulsivo. Esse último sistema organiza a parte automática e instintiva de nossos comportamentos. Pode facilitar, ou, pelo contrário, impedir o sistema reflexivo de colocar em prática nossas intenções.

Essa segunda suposição é ilustrada claramente com um estudo que realizamos e cuja finalidade é compreender a eficácia das mensagens que fomentam a atividade física. Dito de outra maneira, tentamos determinar se a reflexão pode vencer nossos impulsos quando se trata de motivar-se para ser mais ativo fisicamente.

Em primeiro lugar, os participantes viram uma apresentação em que eram feitas recomendações em relação a atividades físicas saudáveis (30 minutos de exercício diário, divididos em sequências de no mínimo 10 minutos, a maioria dos dias da semana). Para medir sua tendência impulsiva a se aproximar dos comportamentos sedentários, na sequência, realizaram uma tarefa experimental: o jogo do manequim.

Tal tarefa consiste em movimentar um avatar em uma tela de computador através do teclado. Em uma das partes da experiência, o participante deve aproximar o avatar o mais rapidamente possível de imagens que representam uma atividade física (correr, andar de bicicleta, natação…) e afastá-lo de imagens que representam uma atividade sedentária (televisão, rede, escada rolante…). Em outra parte, se realiza o contrário: o avatar deve se aproximar das imagens que evocam sedentarismo e se afastar das imagens que representam exercício. Quanto mais rápido o participante se aproximar das imagens sedentárias em vez de se afastar delas, se considera que sua tendência impulsiva ao sedentarismo é mais forte.

Após essa tarefa, os participantes receberam um acelerômetro para registrar sua atividade física diária e foram para casa. Uma semana depois, os resultados foram recolhidos e comentados.

Tais resultados revelam que as mensagens sobre saúde bem formuladas podem ser eficazes para suscitar uma intenção. Efetivamente, os participantes que receberam a mensagem que fomentava a atividade física tiveram intenção mais forte de praticar exercício do que aqueles que receberam a mensagem que promovia uma alimentação saudável. Mas a intenção de fazer exercício físico não significa realmente que iremos realizá-lo e nem todos os participantes conseguem transformar a intenção em comportamento.

Somente aqueles com uma baixa tendência impulsiva a se aproximar a comportamentos sedentários conseguiram fazê-lo. E o inverso: os participantes com uma forte tendência a esses comportamentos não foram capazes de transformar a intenção em atos. Dito de outra maneira, a intenção consciente de ser ativo perdia a luta contra uma tendência automática de procurar comportamentos sedentários.

Por que esses comportamentos sedentários são tão atrativos se são prejudicais à nossa saúde?

A lei do menor esforço, uma herança incômoda da evolução.

Ainda que essa atração ao sedentarismo pareça paradoxal atualmente, é lógica quando se examina do ponto de vista da evolução. Quando era difícil conseguir alimentos, com os comportamentos sedentários era possível economizar energia, algo fundamental à sobrevivência.

Essa tendência a reduzir ao mínimo os esforços inúteis pode explicar a pandemia da falta de atividade física atual, já que os genes que permitem sobreviver aos indivíduos são mais suscetíveis de estar presentes nas próximas gerações.

Em um estudo recente, tentamos avaliar se nossa atração automática aos comportamentos sedentários estava registrada em nosso cérebro. Os participantes desse estudo também tinham que realizar o jogo do manequim, mas, dessa vez, eletrodos registravam a atividade cerebral.

Os resultados dessa experiência demonstram que, para se afastar das imagens de sedentarismo, o cérebro deve utilizar recursos mais importantes do que para se afastar das imagens de atividade física. Consequentemente, na vida diária, para se afastar das oportunidades de sedentarismo onipresentes em nosso entorno moderno (escadas rolantes, elevadores, carros…) é preciso superar uma atração sedentária que está muito arraigada em nosso cérebro.

Eficientes, não preguiçosos

Não devemos, entretanto, acreditar que evoluímos unicamente para reduzir ao mínimo os esforços inúteis, e sim que o fizemos também para ser fisicamente ativos. Há aproximadamente 2.000.000 de anos, quando nossos ancestrais passaram a um modo de vida de caçadores-coletores, a atividade física se transformou em uma parte inerente de sua vida diária, já que à época percorriam em média 14 quilômetros por dia.

A seleção natural, portanto, favoreceu aos indivíduos capazes de acumular uma grande quantidade de atividade física, ao mesmo tempo que dosificavam a energia. Nesses indivíduos, a atividade física estava ligada à secreção de hormônios que combatiam a dor, ansiolíticos e até mesmo euforizantes.

A boa notícia é que esses processos hormonais continuam estando presentes em nosso corpo e estão somente à espera de que recorramos a eles. O primeiro passo a um modo de vida ativo é sermos conscientes dessa força que nos impulsiona à minimização dos esforços. Com essa conscientização, poderemos resistir melhor às inúmeras oportunidades de sedentarismo que nos cercam.

Por outro lado, e uma vez que, da mesma forma que nossos ancestrais, a grande maioria de nós não pratica uma atividade física a menos que seja divertida e necessária, o melhor modo de fomentá-la é torná-la agradável. Consequentemente, é necessário (re)estruturar nossos entornos para favorecê-la, especialmente durante nossos deslocamentos diários.

As políticas públicas, por exemplo, deveriam desenvolver infraestruturas e espaços públicos abertos, seguros e bem mantidos para favorecer o acesso a entornos adequados para correr, andar de bicicleta e realizar qualquer outra atividade física. A arquitetura dos novos edifícios também deveria fomentar nossa atividade física ao longo do dia, dando prioridade ao acesso às escadas, aos locais de trabalho a pé etc.

Depois seremos nós os responsáveis por saber aproveitar essas oportunidades para reduzir nosso sedentarismo. Dessa forma, anime-se e coloque os tênis esportivos!

Fonte: ElPais