Artigo: Transtornos do Exagero

Esse tipo de distúrbio pode ser entendido dentro do espectro do cenário dos adictivos, nos quais se observam conflitos entre o prazer na efetivação das ações exageradas e as consequências negativas em função do seu descontrole.

Uma área muito desafiadora para o psicólogo clínico trabalhar é a que se refere aos transtornos do exagero. Fazem parte dos transtornos do exagero a dependência química, o jogo patológico, a dependência de internet, o sexo compulsivo, o comprar compulsivo e a tricotilomania, transtornos estes que têm um curso crônico e altas taxas de recaída. É preciso destacar que é necessário  que seja feito um diagnóstico diferencial entre os transtornos do exagero e outros diagnósticos  em que, por um período de tempo, há um descontrole de impulsos, como é o caso dos pacientes que apresentam o transtorno afetivo bipolar durante o episódio maníaco ou hipomaníaco. Os indivíduos com transtorno bipolar podem ter um aumento da atividade sexual ou do comportamento de comprar, mas isso, além de ocorrer em fases específicas, vem acompanhado de uma diminuição na sua capacidade crítica e de avaliação dos prejuízos decorrentes desses atos exagerados (American PsychiatricAssociation, 2014).

Em função da relevância desse tema para os profissionais de saúde mental, o objetivo do artigo é apresentar os mecanismos psicológicos que estão associados aos transtornos do exagero e as formas de abordar esse tipo de patologia na prática clínica.

Crenças exageradas

Todas as pessoas, independetemente de já terem ou não apresentado um comportamento exagerado, possuem expectativas de resultado quanto às consequências do mesmo. Com relação a uma droga, como a maconha, por exemplo, pode-se acreditar que ela tem o poder de causar relaxamento, e quanto ao ato de comprar, pode-se pensar que é um jeito de esquecer os problemas. Essa mesma lógica pode ser utilizada para compreendermos as expectativas de resultado quanto a qualquer comportamento exagerado que possamos imaginar.

Apesar do termo expectativas de resultado ser bastante utilizado na literatura científica e na prática clínica, quem tem um transtorno do exagero apresenta o que Beck et al. (1999) denominaram “crenças adictivas” ou, segundo Araújo (2016), “crenças exageradas”. Não se usa, nesses casos, o termo expectativas de resultado, pois as ideias que a pessoa com transtorno do exagero tem a respeito do seu comportamento são mais rígidas e difíceis de serem modificadas (Beck et al., 1999), em “crenças antecipatórias” (que antecipam o prazer associado ao comportamento exagerado – “Exagerando, vou me divertir mais”).

As crenças adctivas ou exageradas se conectam com as crenças centrais do individuo – as quais são ideias rígidas e hipergeneralizáveis que ele tem a respeito de si mesmo, do mundo e do futuro – de modo a se tornarem formas de lidar com essas crenças centrais (Araújo et al., 2013; Beck et al., 1999). Se alguém tem uma crença central “Sou frágil” e uma crença exagerada antecipatória “Vou me sentir mais forte” (ao exagerar), isso pode gerar euforia e fissura (desejo por exagerar) e levar à conduta adictiva – como usar uma droga. Esse mecanismo demonstra que ter o comportamento exagerado (nesse caso, usar uma droga) é uma estratégia compensatória utilizada para que a crença central “Sou frágil” não se ative. Existe um pressuposto, por trás “devo usar drogas”, que indica que, se o individuo “usar drogas, não será frágil”, mas que, do contrário, “não as utilizando, será frágil”. Obviamente, esses pressupostos e regras mantêm “vivo” o comportamento exagerado, pois eles indicam que cometer o exagero será um jeito efetivo de defender o indivíduo da ativação de sua crença central.

Identificação

Para a identificação das crenças dos pacientes utiliza-se um instrumento denominado Registro da Fissura (Beck et al., 1999), no qual será apresentada uma situação indutora de fissura para ter o comportamento exagerado e ficará explicito o que o paciente pensou antes de sentir a fissura.

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Oniomania, quando as compras viram doença

Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas em Saúde, em Taiwan, compararam indivíduos que iam ao shopping com outros sem esse costume e observaram, no final, que os amantes das vitrines não só viviam mais como tinham uma maior capacidade cognitiva.

“Atitudes como saber o que está na moda, negociar e sociabilizar com outras pessoas estimulam o cérebro”, explica a psicóloga Tatiana Filomensky, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Mas é importante não deixar o hábito de ir às compras passar do ponto – do contrário, você pode acabar caindo na oniomania.

Oi? Oniomania é o nome dado pelos especialistas ao impulso incontrolável e constante de adquirir produtos e mais produtos. “A pessoa às vezes até percebe que está exagerando, porém não consegue parar. Essa situação a deixa ansiosa e, em certos casos, depressiva“, relata Tatiana. Para não chegar a esse ponto, o jeito é ficar atento a indicativos como os colocados abaixo.

Sinais de que é melhor fechar a carteira:

• Comprar itens desnecessários sem ter dinheiro sobrando;

• Frequentar – e esvaziar – lojas desacompanhado;

• Possuir familiares com histórico de compulsão, seja ela qual for.

Não há um levantamento no Brasil, mas, nos Estados Unidos, 5,5% da população tem oniomania. Ou seja, a compulsão por compras está longe de ser uma raridade. E pode provocar estragos enormes, tanto nas finanças quanto na saúde mental. Se sentir que está perdendo o controle, não deixe de consultar um profissional.

Este texto foi publicado originalmente no site de SAÚDE.

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Por que é importante manter a rotina do sono mesmo durante as férias?

A médica especialista em sono, Aliciane Mota, explica que manter uma rotina regular de sono, até mesmo durante as férias,  é importante para o descanso e para garantir um melhor desempenho das crianças e jovens.

“Para que a rotina não fique totalmente diferente do habitual em período de aulas é preciso que os pais tenham uma posição ativa com relação às atividades dos filhos. Os hábitos de meses podem ser pedidos facilmente em poucos dias ou semanas de um recesso sem regras”, ressalta.

De acordo com a especialista, a boa rotina de sono garante um bom funcionamento do organismo que, consequentemente, vai garantir uma capacidade melhor de aprendizado da criança e a manutenção dos níveis de secreção hormonal. A criança que não dorme bem fica agitada e com dificuldades de concentração.

No sono, vários hormônios estão envolvidos, como as endorfinas, serotoninas, leptina, e, principalmente, o hormônio do conhecimento, conhecido como GH e que é extremamente importante nesta fase da vida. “Esses hormônios são secretados principalmente quando se tem uma boa qualidade de sono, e se isso é alterado, toda a produção hormonal também sofre mudança”, considera Aliciane.

O tempo de sono varia de acordo com a idade da criança. Quanto mais velha, menor a quantidade de horas necessárias de repouso. Em geral, as crianças com idade pré-escolar, entre 3 e 5 anos, precisam de 13 horas de sono por dia. Enquanto as de idade entre 6 e 12 anos devem dormir ao menos 10 horas.

O exagero de atividades estimulantes como jogar vídeo game e correr, por exemplo, comuns no período de férias, podem estar entre os fatores que colaboram para uma má noite de sono para crianças. “Algumas brincadeiras estimulam demais a função cerebral e, além de atrasarem o horário de dormir, acabam causando interrupções no sono durante a noite”, acrescenta a médica.

O recomendado é procurar não permitir que a criança saia tanto da rotina durante este período do ano.

Fonte:Jornal Cruzeiro

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Remédios para dormir provocam dependência e devem ser prescritos com bastante cautela

Nenhum medicamento consegue reproduzir perfeitamente o sono fisiológico, os médicos chamam esse sono de farmacológico. Os medicamentos para dormir causam dependência, perdem o efeito com o tempo e precisam ser prescritos com bastante cautela.

Sedativos, hipnóticos, antidepressivos, relaxantes. A lista de medicamentos para dormir é imensa e a de efeitos colaterais também. Mas tem gente que realmente precisa!

Onze milhões de brasileiros tomam remédios para dormir! Será que vicia? O pneumologista do sono Dr. Geraldo Lorenzi tira essa dúvida. E o que acontece com as pessoas que trocam o dia pela noite? Dr. José Cipolla Neto, endocrinologista, explica.

Saiba mais

Melatonina – A melatonina é um hormônio e, entre outras funções, regula o sono. À noite, quando começa a ser produzida, ela sinaliza para o sistema nervoso central que é hora de acabar com o período de atividade e começar o período de repouso. Para isso, alguns mecanismos fisiológicos são acionados e o principal é o sono. Enquanto a melatonina é produzida normalmente, ela garante um sono saudável.

Alguns fatores podem interferir e até bloquear a produção da melatonina: a luz (principalmente a azul, proveniente dos celulares, tablets e televisão), remédios e a idade, pois a produção de melatonina cai com o passar dos anos. Aos 70/80 anos, a gente produz 20% menos melatonina que quando jovem.

No Brasil, a melatonina é vendida em farmácias de manipulação e a sua ingestão deve ser orientada por um médico. É preciso saber a dose correta, formulação adequada e o horário certo para tomar. Se tomado de maneira errada, o hormônio desregula todo o organismo: metabolismo, sono e vigília, sistema cardiovascular e imunológico.

Relógio biológico – Dr. José Cipolla explica que é a partir da informação do tempo, se é dia ou noite, que o nosso relógio biológico prepara o corpo para um dos períodos. DIA: a gente acorda, ficamos ativos, nos alimentamos, interagimos, o metabolismo está ativo e aproveita o que comemos, a pressão e a temperatura do corpo estão mais altas. NOITE: dormimos, estamos em repouso, o metabolismo garante o jejum, o sistema nervoso se recupera, os músculos se recuperam, a pressão e a temperatura do corpo permenecem mais baixas.

De acordo com o Dr. Geraldo, cada um tem um relógio biológico diferente, são os cronotipos. Algumas pessoas são vespertinas, outras matutinas e outras noturnas. Por conta disso, há muita confusão entre privação de sono e insônia. Por exemplo: uma pessoa que é vespertina, tem problemas para conseguir dormir cedo e acorda com muito sono. Essa pessoa vai ao médico e diz que tem insônia, mas na verdade, ela só não está respeitando o relógio biológico interno e tem privação de sono. Com o tempo, é possível flexibilizar esse relógio biológico, mas algumas pessoas têm mais dificuldade.

Remédios – Existem dois tipos de insônia: a inicial e a dificuldade de manutenção de sono. Os remédios agem dependendo da insônia de cada um, mas todos eles agem no sistema nervoso central com diferentes mecanismos.

Segundo Dr. José Cipolla, nenhum dos medicamentos consegue reproduzir perfeitamente o sono fisiológico, os médicos chamam esse sono de farmacológico. Apenas a melatonina é capaz de induzir ao sono naturalmente.

Dr. Geraldo alerta que os medicamentos para dormir causam dependência, perdem o efeito com o tempo e precisam ser prescritos com bastante cautela.

Tratamentos não-medicamentosos – O tratamento mais difundido é a terapia cognitivo-comportamental, que envolve a higiene do sono: horários regulares para dormir, evitar cafeína, evitar ir para cama sem sono, não ficar na cama após acordar.

Uma das peças-chave é diminuir o tempo de cama: pessoas vão para a cama às 21h e ficam até 9h. Mas quando você pergunta quanto tempo ela dormiu, foram só 4h ou porque enrolou para dormir ou porque enrolou depois de acordar, isso não é saudável.

Além da higiene do sono, tratar a causa da insônia é o recomendado, principalmente no caso de distúrbios como a apneia. Quando descoberta a causa, os remédios serão menos necessários.

Privação de sono e o álcool – Um estudo publicado na Nature mostrou que não dormir o suficiente tem um impacto no cérebro semelhante ao do abuso do álcool. Dr. José Cipolla explica que a privação de sono afeta o sistema nervoso central de forma a diminuir o desempenho durante a vigília. É um princípio diferente do álcool, mas os efeitos são semelhantes: diminuição dos reflexos, aumento no tempo de resposta a um estímulo, dificuldade de compreensão, lapsos de memória.

Fonte: Bem Estar

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Artigo: Compulsão por compra, um mal que custa caro

Comportamento amplamente disseminado no âmbito capitalista, adquirir bens está relacionado a diversos tipos de expressões emocionais: alegria, tranquilidade, satisfação e orgulho.

Quem não gosta de fazer compras? Porém, da mesma forma que podemos nos beneficiar com a aquisição de diversos produtos, também é possível entrar em um grupo patológico que gera profundo desconforto e sofrimento a esses compradores: o transtorno do comprar compulsivo.

Será que o hábito de comprar é novo? De acordo com Tavares et al. (2008), o ato de comprar desenvolveu-se na Grécia Antiga, onde a emergência do dinheiro alterou os valores culturais e morais. O poder era determinado não pelo nome de família, mas pelo comércio, que aumentou muito pela adoção dos sistemas monetários. Contemporaneamente existe um distinto contexto para a realização das compras, porém, como visto, parte desta população pode estar adoecida com essa prática. Dessa forma, tem-se considerado o comportamento exagerado como uma patologia de dependência, agrupado com os transtornos de uso de álcool e drogas. Outros estudiosos consideram-no como parte do espectro dos transtornos obsessivo-compulsivos, ou do humor. Essa é uma categoria que foi proposta e que combina dependências comportamentais e inclui o jogo patológico, a cleptomania, a piromania, a dependência de internet e o comportamento sexual compulsivo.

Um estudo desenvolvido por Trotzke et al. (2015) investigou os diferentes fatores de vulnerabilidade para o transtorno do comprar compulsivo e determinou se a compra patológica on-line estava relacionada a algum tipo de dependência de internet específico. De acordo com o modelo de dependência de internet, fatores de vulnerabilidade podem consistir em uma predisposição à excitabilidade para comprar. Além disso, a experiência de fissura também deve ser um fator para as compras on-line de forma patológica. Os pesquisadores testaram, em uma mostra de 240 mulheres, o nível de excitabilidade para comprar através da exposição de imagens relacionadas a compras. Os resultados do estudo demonstraram que o uso inadequado de internet e a alta expectativa de comprar estão relacionados a um comportamento desadaptativo de compras. O estudo sugere que sujeitos que utilizam excessivamente a internet e apresentam o comportamento de comprar fora da internet podem também comprar excessivamente on-line.

Em relação ao perfil desse compradores, Tavares et al. (2008) mencionaram que a experiência de comprar é quase sempre solitária e, embora as compras sejam geralmente para eles mesmos, os compradores compulsivos podem gastar excessivamente em compras para seus parceiros ou cônjuges, filhos ou amigos. O transtorno pode ocorrer em qualquer tipo de estabelecimento comercial, desde lojas de departamentos luxuosas a brechós ou pequenas lojas. Compras pela internet e por catálogos são também populares entre os compradores compulsivos. Rose e Dhandayudham (2014) relatam que a literatura em relação ao comportamento problemático e compras on-line é limitada e ainda é discutida dentro do contexto de dependência de internet de outras dependências (alguns pesquisadores reforçam a relação dessa problemática como sendo essencialmente circunscrita á dependência de internet). Apesar dessas diferenças de posicionamentos, há um ponto em comum: a instabilidade emocional e o materialismo apresentam efeitos positivos nesse tipo de comportamento inadequado. A dificuldade de controle comportamental torna-se um forte elemento determinante no comprar compulsivo.

Segundo Tavares et al. (2008), não há tratamento padrão para esse tipo de transtorno e muito do que tem sido descrito reflete a orientação teórica do autor. Há vários estudos de caso com relação ao tratamento de compradores compulsivos, cada um deles enfatizando a importância das experiências iniciais da vida. Apenas mais recentemente foram desenvolvidos modelos cognitivo-comportamentais para o transtorno. Ainda de acordo com pesquisadores, outras abordagens também têm sido descritas. Livros de autoajuda estão disponíveis e podem ser úteis. Os Devedores Anônimos, criado sob o padrão dos Alcoólicos Anônimos, podem ser também úteis. É um grupo voluntário, dirigido por leigos, que proporciona uma atmosfera de apoio e encorajamento mútuos para aqueles que têm dívidas substanciais.

Em suma, trata-se de um problema contemporâneo que deve ser visto de forma singular e que tratamentos cada vez mais eficazes sejam desenvolvidos para uma população que adoece com frequência cada vez maior na era da cibercultura.

Fonte: Revista Psique Ciência e Vida

Autor do Artigo: Igor Lins Lemos é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas.

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Celular antes de dormir afeta sono, hormônios e desenvolvimento infantil

Crianças que têm acesso a eletrônicos, como celulares e tablets, na hora de dormir, estão sujeitas a desenvolver uma série de problemas de comportamento e de saúde.

Crianças que têm acesso a eletrônicos, como celulares e tablets, na hora de dormir, estão sujeitas a desenvolver uma série de problemas de comportamento e de saúde. Uma pesquisa do King’s College, de Londres, reuniu dados de 125.198 crianças e adolescentes entre 6 e 19 anos de idade, em diversos países, e detectou efeitos negativos do uso do aparelho no período de descanso em diferentes graus de gravidade. Os pesquisadores verificaram de má qualidade do sono a doenças como obesidade e depressão infantil.

E não são só pesquisadores e pais que têm se preocupado com o assunto. Neste fim de semana, dois grandes grupos de investidores com US$ 2 bilhões em ações da Apple pediram, em carta aberta, que a empresa desenvolva softwares que limitem o uso de smartphones por crianças. Os acionistas citam justamente estudos mostrando o impacto negativo do celular e das redes sociais em excesso na saúde física e mental dos jovensa para justificar o apelo. A Apple ainda não respondeu a eles.

Impactos
O modo como os jovens têm usado a tecnologia têm sido diversos e cada vez mais intenso, segundo o estudo do King’s College. E, para cada uso, há variados impactos gerados na vida deles. A médica Roberta Magalhães, no Rio de Janeiro, quase todos os dias precisa chamar a atenção da filha Roberta, de 9 anos, para desligar o celular na hora de dormir.

“Com certeza atrapalha. Ela fica horas navegando na internet, no Instagram, WhatsApp, Musical.ly, assistindo vídeos no YouTube. Depois demora a dormir. Fica rolando na cama”, conta. Roberta diz ainda não ter observado impactos negativos na rotina, mas observa atentamente: “Se interferir, tiramos o celular na hora.”
Na casa da professora carioca Rovana Machado, a situação na hora de dormir não é diferente com o filho Theo, de 14 anos. “Ele fica fissurado olhando a tela. Acho que atrapalha bastante e, quando vejo, mando desligar, mas adolescente é fogo. Fazem as coisas escondidos e temos que repetir mil vezes.”

Além dos efeitos sobre o sono e a propensão a desenvolver doenças, os pesquisadores mostraram que deixar o celular ou o tablet no quarto das crianças, mesmo que eles não os utilizem, também afeta o período de descanso. A mera expectativa de receber mensagens nas mídias sociais deixava as crianças e adolescentes em estado de alerta.

“Esse tipo de estudo endossa o que as pessoas de bom senso já sabiam. Os eletrônicos dão uma sossegada nas crianças por um tempinho mas, no médio e longo prazo, são muito ruins para o organismo”, observa o neurologista Leonardo Ierardi Goulart, médico especialista em doença do sono do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde também recebe crianças e adolescentes com problemas de sono e relatos de uso de eletrônicos à noite.

O estudo do King’s College observa que o distúrbio do sono na infância é conhecido por causar danos à saúde mental e física. Isso incluiria obesidade, queda do sistema imunológico, crescimento atrofiado e problemas mentais como depressão e tendência suicida. Em 2016, um estudo da Sociedade Real para Saúde Pública (RSPH, na sigla em inglês), na Grã-Bretanha, foi além e alertou que dormir pouco ou mal é um dos fatores que levariam a doenças graves como câncer e ataques cardíacos.

A importância do sono
Para a neurologista Anna Karla Smith, do Instituto do Sono, de São Paulo, o descanso é tão importante para o desenvolvimento e bem-estar da criança quanto a nutrição e a atividade física. “O sono é um estado em que há uma série de processamentos, onde há a fabricação de alguns hormônios muito importantes para o corpo”, comenta a médica. “Nas crianças existe o GH, o hormônio do crescimento, essencial para o desenvolvimento do corpo. Esse hormônio é liberado durante o sono profundo que a criança entra poucos minutos depois de adormecer. Nessa fase há o pico de sua fabricação.”

A neurologista explica que se a criança vai dormir tarde, por exemplo, os hormônios ainda serão liberados, mas de maneira antifisiológica. “Ela está indo contra a sua natureza. A quantidade de hormônio do crescimento produzida pode ser pouca ou até inexistente em casos extremos se houver patologia. A própria distribuição do hormônio do crescimento estará alterada ao longo do dia”, explica a especialista.

A liberação de outros hormônios também é prejudicada, segundo a médica, já que em diferentes etapas do sono há a produção da leptina (hormônio da saciedade), do cortisol (que ajuda a manter estabilidade emocional, controla inflamações e alergias) e do TSH (estimulador da tireóide).

Como o uso de eletrônicos atrapalha?
O simples fato de ligar o celular ou tablet para brincar com um jogo faz com que a criança, por exemplo, atrase sua hora de ir para cama e durma menos. Em segundo lugar, diz o estudo da King´s College, o conteúdo pode ser muito estimulante – e gerar uma excitação que atrase o início do relaxamento. Em terceiro lugar, a forte luz emitida pelas telas dos dispositivos gera um impacto no corpo, afetando o relógio biológico e a percepção do cérebro do que é noite ou dia.

A chamada “luz azul” já foi alvo de diversos estudos nos últimos anos. O mais recente, da Universidade de Haifa, em Israel, constatou que a luz azul, presente nas telas de celulares, tablets e computadores, inibe a secreção da melatonina, o hormônio que avisa o nosso corpo que está na hora de dormir. O organismo também não ativa seu mecanismo natural que reduz a temperatura corporal. O normal é que a temperatura do corpo caia durante a madrugada e volte a subir quando estamos prestes a despertar. Isso, contudo, não ocorre se o cérebro recebe a mensagem que ainda estamos em estado de vigília.

Prejuízos
De acordo com a neurologista, no curto prazo, os “prejuízos, às vezes, não são perceptíveis”. Mas a falta de sono “pode interferir no rendimento cognitivo porque o processamento de memória, que ocorre na segunda metade da noite, provavelmente não aconteceu ou não aconteceu de maneira satisfatória”. “Em curto prazo, pode afetar a consolidação de informações recém-aprendidas porque vai ter um sono mais superficial, mais fragmentado e não reparador”, afirma Leonardo Ierardi Goulart, médico especialista em doença do sono do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ele explica que as atividades cerebrais que assimilam os conhecimentos adquiridos durante uma aula, por exemplo, ocorrem durante o sono profundo. É nesse momento que o cérebro processa, revisa e armazena a memória.

Em longo prazo, porém, os riscos são maiores. “Não é uma insônia, de dois, três, seis meses”, destaca Anna.
No longo prazo, ela explica, há uma “bagunça de hormônios” que controlam, por exemplo, a saciedade. Se não produz esse hormônio, a leptina, cuja liberação ocorre ao longo da noite e no início da manhã, o indivíduo vai comer mais, podendo ficar obeso e diabético.

 

Fonte: BBC

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Artigo: Exercícios combatem transtornos de humor

Aumento progressivo desses distúrbios, chegando a 20% da população mundial, pode ser evitado pelos efeitos benéficos que as atividades físicas exercem sobre o sistema nervoso central.

Nas últimas décadas observou-se um progressivo aumento da prevalência de transtornos de humor na população adulta mundial. As últimas estimativas mundiais para a preponderância desses transtornos são significativamente altas cerca de 20%. Isso significa que um grande número de pessoas experimentará algum tipo de transtorno de humor ou ansiedade em algum período da vida, de maneira contínua ou recorrente. Algumas condições como estresse, ansiedade, depressão, fobias, transtornos compulsivos e pânico compreendem uma boa parte dos transtornos mentais observados.

O estresse e a ansiedade excessiva são os componentes-chave ou sintomas comuns em quase todas essas condições. O estresse é frequente em adultos relativamente saudáveis e tem sido associado a consequências negativas na saúde, absenteísmo e redução na produtividade profissional. Uma compreensão mais ampla da etiologia dos problemas relacionados ao estresse inclui uma multiplicidade de fatores: biológicos, psicológicos e sociais; todos mediados por fatores de risco e proteção.

O tratamento atual para transtornos de humor inclui intervenções terapêuticas e farmacológicas, ambas embasadas por grande quantidade de evidências empíricas através de estudos controlados. No entanto, muitos indivíduos acometidos por esses transtornos acabam não procurando ajuda profissional, o que indica a necessidade de criação de autoestratégias complementares apropriadas e confiáveis.

Além disso, tanto pacientes quanto pesquisadores concordam em dois pontos: não é satisfatório passar uma vida inteira fazendo uso de medicamentos e as estratégias terapêuticas tradicionais podem ser extremamente custosas, se realizadas durante longo período. Ensaios clínicos vêm demonstrando que tanto drogas ansiolíticas quanto antidepressivos têm eficácia limitada em longo prazo, causam dependência e sonolência, afetam cognição e memória e produzem disfunção sexual.

Existe uma diversidade de abordagens terapêuticas tradicionais para o tratamento de transtornos mentais, mas muitas vezes os pacientes preferem procurar intervenções complementares por diversos motivos, tais como efeitos adversos da medicação, falta de resposta ao tratamento, alto custo das psicoterapias ou simplesmente preferência por alguma intervenção complementar específica.

As últimas duas décadas de estudos vêm demonstrando que os resultados neuroquímicos observados podem ser traduzidos em melhorias nas funções cognitivas e na saúde mental, tanto de indivíduos saudáveis quanto de pacientes acometidos por transtornos mentais. O efeito significativamente benéfico do exercício no sistema nervoso central e o fato deste representar uma completa reformulação do estilo de vida, e uma ação efetiva de promoção de saúde e prevenção de doenças, fazem do exercício a estratégia terapêutica mais promissora no tratamento de transtornos mentais.

Depressão

A depressão é um dos maiores problemas de saúde pública do mundo. Sua incidência é estimada em aproximadamente 20% da população mundial. Além disso, somente 30% a 35% dos pacientes depressivos respondem ao tratamento com psicofármacos. Estudos mostram que o tratamento farmacológico reduz em cerca de somente 50% os sintomas relacionados, e que o exercício pode ser considerado eficaz no tratamento da depressão.

Estudos que utilizaram o exercício como intervenção terapêutico na depressão concluíram que o grupo que pratica exercício apresenta maior recuperação e menor recaída do que os outros, e quanto maior for o tempo gasto com exercícios, menores serão os níveis de depressão. Embora apresentem resultados significativos no tratamento da depressão os mecanismos pelos quais a atividade física proporciona efeitos antidepressivos são ainda especulativos. Os benefícios são similares àqueles alcançados com antidepressivos e são dependentes da “dose”, ou seja, melhorias mais significativas estão associadas a maiores níveis (frequência) de exercício.

Pessoas com depressão apresentam alterações no fluxo sanguíneo e no metabolismo do córtex pré-frontal, aumento do metabolismo de glicose na amígdala (aprendizado emocional/ medo e ansiedade), secreção aumentada de cortisol e alterações cognitivas como comprometimento na atenção, memória, velocidade de processamento, função executiva e emoção. Um dos fatores que podem explicar o déficit de memória na depressão é a alteração na atividade hipocampal, em consequência do excesso do excesso de cortisol, da redução de fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) e da neurogênese.

O exercício físico contribui para o desenvolvimento da neurogênese no hipocampo através do aumento na produção de BDNF, IGF-1 e VEGF e da potencialização de longa duração (consolidação de memórias). Além disso, também está comprovadamente relacionado ao aumento na liberação de endorfinas, serotonina, dopamina e noradrenalina. Todos esses fatores contribuem para a manutenção e reparação de saúde mental. De modo geral, e tendo em vista os benefícios físicos e psicológicos do exercício, é possível concluir que sua prática por indivíduos depressivos é capaz de prevenir e reduzir significativamente os sintomas de depressão.

O efeito do exercício na saúde mental e nas funções cognitivas fez com que os pesquisadores voltassem a atenção ao possível impacto da atividade física no cérebro de pacientes acometidos por doenças neurodegenerativas. O Alzheimer hoje é a forma mais comum de demência em idosos, acometendo cerca de 50% dos nonagenários. As alterações fisiopatológicas, como acúmulo de placas senis e emaranhados neurofibrilares , estão relacionados à diminuição do volume cerebral, do número de neurônios, do número de sinapse e da extensão das ramificações dendríticas.

Estudos em animais verificaram que o exercício aumenta a expressão de BNDF, IGF1 E VEGF. Como já mencionado, o BNDF é um importante regulador de plasticidade neural, e níveis reduzidos dessa substância causam redução da plasticidade sináptica em área do cérebro afetadas pelo processo de envelhecimento. Uma redução nos níveis de IGF-1 no cérebro também pode contribuir para o declínio das funções cognitivas durante o envelhecimento.

Regulação

Por outro lado, o exercício é capaz de regular para cima as concentrações de IGF-1 e BNDF no cérebro. Estudos sugerem também que o aumento do fluxo sanguíneo cerebral e maior metabolismo cerebral da glicose, em consequência do exercício , tenham relação com a degradação da proteína-amilóide, cujo acúmulo é responsável pela morte de neurônios colinérgicos no Alzheimer. Indivíduos com Alzheimer mostram melhoras em escalas de atividades cotidianas, em testes cognitivos, sintomas depressivos e funções físicas, comparados aos que não se exercitam, cujas funções continuam a declinar. Além disso, o exercício influencia fatores de risco associados à demência , tais como a resistência á insulina, já que este em idosos está relacionado à redução do metabolismo de glicose no lobo temporal medial. Assim, o exercício é capaz de melhorar a sensibilidade à insulina e contribuir potencialmente para a melhora da memória na doença.

A doença de Parkinson é considerada a segunda doença neurodegenerativa mais comum atualmente, afetando cerca de 0,3% da população em geral. Caracteriza-se pela perda dos neurônios dopaminérgicos da substancia negra, provocando desordem dos movimentos, tremores em repouso, rigidez e bradicinesia. A degeneração dopaminérgica nigroestrital é um dos principais mecanismos da doença, cujos déficits atingem principalmente mecanismos motores. Além do circuito dopaminérgico, noradrenérgico e colinérgico também são afetados na doença de Parkinson, e podem contribuir para as disfunções cognitivas observadas no decorrer da doença.

O conhecimento atual sobre os mecanismos envolvidos no efeito neuroprotetor contra o Parkinson baseia-se em resultados obtidos em modelos animais. Tem sido demonstrado que o exercício tem efeito significativo na função dopaminérgica, de modo a estimular a expressão de fatores neurotróficos e angiogênese. Em resposta ao exercício, observa-se um aumento na concentração de dopamina, o que contribui para a reconstituição da função dos núcleos de base, envolvidos no comando dos movimentos e neurotransmissãoglutamatérgica. Tal aumento parece estar relacionado também ao aumento da concentração de BDNF.

Estudos epidemiológicos sugerem ainda que a prática de atividade física pode impedir o desenvolvimento da doença. Pesquisadores do Instituto Nacional de Ciências Ambientais da Saúde, nos Estados Unidos, coordenados pelo dr. Xu Q. (2010), verificaram que o risco de desenvolver Parkinson parece ser inversamente proporcional à quantidade de atividade física praticada ao longo da vida.

 

Fonte: Psique Ciência e Vida

               

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Artigo: A felicidade desejada

A ciência se debruça em entender como o cérebro reage às emoções e investem trabalhos e pesquisas desenvolvidas em diversos países que avaliam a felicidade.

A INFLUÊNCIA DA NEUROCIÊNCIA NAS EMOÇÕES POSITIVAS
É possível treinar o cérebro com estratégias que permitam o aumento das manifestações benéficas e a redução das negativas, mas para isso é preciso compreender como funciona o grande maestro do corpo e da mente.

A felicidade é uma habilidade? A convergência de pesquisas neurocientíficas de ponta com a sabedoria de antigas tradições contemplativas sugere que a felicidade é um produto de habilidades que podem ser melhoradas através de treinamentos específicos, como o cultivo de emoções positivas, paz interior e pequenas atitudes altamente eficazes, que exemplificam como a transformação da mente afeta o cérebro. O objetivo aqui é ensinar, na pratica, como a neurociência pode ajudar uma pessoa a ser mais equânime e feliz.

O que é felicidade? A felicidade tem sido há muito tempo tema de poemas, cinema, filosofia, arte e, recentemente, ciência. A temática de pesquisa “ciência da felicidade” consiste em identificar não só áreas do cérebro relacionadas às emoções positivas, mas estratégias de treinamento que nos permitem acionar tais áreas e remodelar nosso cérebro e comportamento.
De acordo com o economista e ex-conselheiro do governo britânico, Lord Richard Layard, que conduziu um estudo inovador na Escola de Economia de Londres (LSE), grande parte do sofrimento humano advém dos problemas de relacionamentos e doenças (mentais e físicas) ao invés de dinheiro e pobreza. O economista diz que o estudo, denominado “As origens da felicidade”, mostrou que, apesar de um aumento na média dos salários ao redor do mundo nos últimos 50 anos, as pessoas se tornaram mais infelizes. O autor define felicidade como “sentir-se bem e gozar a vida”.

A ciência tem observado, cada vez mais, uma intima relação entre o treinamento de determinados comportamentos e o aumento proposital de atividades em certas áreas do cérebro (neuroplasticidade) e as definições de felicidade, segundo filosofias orientais como o budismo, conforme declaração do próprio Dalai Lama: “Através da mobilização dos pensamentos e da prática de novos padrões de pensamento, podemos remodelar nossos neurônios e mudar a maneira como nossa mente trabalha”.
“A felicidade é determinada muito mais pelo estado mental do que por eventos externos”, Dalai Lama XIV, A Arte da Felicidade.

A medida que o cérebro foi evoluindo, foram desenvolvidas também capacidades para se preencher as três necessidades básicas – segurança, satisfação e conexão – através dos três sistemas chamados operantes. 

Para entender, no entanto, como treinar o cérebro com estratégias que permitam o aumento de emoções positivas e a redução de afetos negativos, é preciso primeiro compreender como funciona o grande maestro do corpo e da mente.

Modos operacionais
O cérebro humano foi desenvolvido em três estágios, que estão associados às fases evolutivas de répteis, mamíferos e primatas. Esses três “tijolos de construção” ou camadas foram sendo adicionados de baixo para cima, respeitando a evolução dessas classes: tronco, subcórtex (emoção, motivação e conexões sociais) e córtex (raciocínio abstrato, reflexão, atenção, habilidades sociais, empatia, planejamento, linguagem etc.).

Ao mesmo tempo, também foi sendo desenvolvido o SNA (sistema nervoso autônomo), junto com o importante nervo vago e as ramificações para o sistema nervoso parassimpático (SNP) (ramificação mais antiga), simpático (SNS) (ramificação mais nova) e a mais recente ramificação do nervo vago, que suporta o sistema de engajamento social, exclusivo dos mamíferos.
A medida que o cérebro foi evoluindo, foram desenvolvidas também capacidades para se preencher nossas três necessidades básicas – segurança, satisfação e conexão- através dos três sistemas chamados operantes, que têm por objetivo: evitar algo prejudicial (segurança), abordar a recompensa (satisfação) e conectar a outros indivíduos (conexão).

Nosso cérebro está todo tempo, tentando preencher essas três necessidades. Por exemplo, quando evitamos passar num sinal vermelho (segurança), no restaurante ao escolhermos algo que seja bom (recompensa) ou quando ligamos para um amigo (conexão).

Para preencher as necessidades básicas essenciais à manutenção da vida e perpetuação da espécie, o cérebro responde a dois sistemas operacionais: o modo responsivo e o reativo. Cada sistema operacional tem seu conjunto de habilidades, atividades mentais e comportamentos e são eles que dirigem todo o show de duas maneiras bem diferentes.

Imagine um dia bom: você acorda se sentindo bem, toma café, planeja seu dia deitado na cama levemente relaxado e vai para o trabalho, sem deixar que o tráfego pesado e os outros motoristas o perturbem. Você pode não estar 100% satisfeito com seu trabalho, mas hoje você tenta enfatizar a sensação de que alcançou algo, de que completará suas tarefas. No caminho de volta, seu parceiro(a) pede que compre ovos. Não é o que mais gosta de fazer depois de um dia de trabalho, mas você lembra que são só alguns minutos que perderá. Então, chega em casa e espera ansioso pelo seu programa preferido de televisão.

Agora imaginemos o mesmo dia numa abordagem completamente diferente. Ao acordar, você logo se lembra de que deve seguir para um trabalho insatisfatório. No caminho, se depara com tráfego pesado e lentidão, aumentando a ansiedade e o estresse. Depois de um dia fazendo o que não gosta, seu parceiro(a) ainda precisa que passe em um mercado provavelmente lotado, o que o deixa mais irritado.

Nesses dois dias imaginários, as mesmas coisas aconteceram, a única diferença foi a maneira como seu cérebro lidou com as situações. Temos dois modos de lidar com as situações: o responsivo e o reativo. Quando nos sentimos seguros, o sistema que evita o prejudicial entra no modo responsivo, trazendo calma, paz e relaxamento. Quando nos sentimos satisfeitos, o sistema que aborda o prazeroso muda para o modo responsivo, trazendo os sentimentos de gratidão, alegria e contentamento. E quando nos sentimos conectados, o sistema que se conecta a outros também muda para o modo responsivo, evocando intimidade, compaixão, gentileza e amor.

Cérebro Verde

O neurocientista Rick Hansen, autor do best-seller O cérebro de Buda (2009), chama esse modo operacional de “cérebro verde”, no qual preenchemos nossas necessidades sem que estas se tornem agentes estressores. Quando nosso cérebro não é perturbado por ameaça, perda ou rejeição, ele reside no modo responsivo, envolvendo neurotransmissores, como ocitocina e opioides naturais, e regiões como o córtex cingulado subgenual e o SNP. A boa notícia é que essa é a nossa casa. É isso que somos essencialmente.

Quando o cérebro está no modo responsivo, ele diz ao corpo para conservar energia e se autorreparar. Nossos ancestrais desenvolveram esse modo para prevenir, gerenciar e se recuperar de momentos de estresse. Por exemplo, endorfinas e óxido nítrico, que são liberados quando o cérebro verde entra em ação, ajudam a matar micro-organismos, aliviam a dor e reduzem a inflamação. Esse modo salutogênico promove boa saúde. O modo responsivo evoluiu para ser prazeroso, para que nossos ancestrais fossem motivados a procura-lo.

Segundo Hanson, quando o cérebro verde entra em ação, nossas redes neurais não estão mais em estado de perturbação e o hipotálamo se torna menos ativo, assim como a nossa sensação de falta, de pressão e demanda e, consequentemente, preocupações, irritabilidade, decepções e dor. À medida que nos sentimos mais seguros e fortes, realizados, respeitados e gratos, conseguimos também ser mais compassivos e generosos com outros. Desse modo, nossas necessidades mais básicas são preenchidas. Assim, o estado natural de repouso, o modo responsivo, é a base para a recuperação psicológica, bem-estar, saúde, relações positivas e todo o potencial humano. E toda vez que damos mais importância às experiências positivas, fortalecemos os substratos neurais desse modo operacional.

Sistemas Neurais

Por outro lado, há um modo que evoluiu para manter nossos ancestrais vivos quando ameaçados ou rejeitados: o modo reativo. Sistemas neurais múltiplos estão constantemente escaneando qualquer sensação de algo errado, qualquer sensação de não estarmos preenchendo nossas necessidades básicas – segurança, satisfação e conexão. Enquanto o modo responsivo é nosso estado de repouso, o viés negativo nos torna muito vulneráveis a serem perturbados e colocados no modo reativo. Quando nos sentimos apreensivos, exasperados, rejeitados ou criticados, isso perturba o equilíbrio saudável do modo responsivo e engatilha o modo reativo, o chamado “cérebro vermelho”, que evoluiu para ajudar nossos ancestrais a escapar de predadores, achar comida e proteger os filhotes a todo custo.

Segundo Hanson, no cérebro vermelho, a amígdala manda a mensagem de alarme para o hipotálamo, para que este libere hormônio de estresse, e para o sistema nervoso simpático, para que este nos deixe em modo superalerta – luta ou fuga, se houver histórico de trauma a amígdala também pode, contrariamente ativar de modo extremo o sistema nervoso parassimpático (SNP) e dar inicio a um estar de hipoalerta, causando congelamento, paralisação e dissolução.

Esses mesmos circuitos neurais que nossos ancestrais usavam para sobrevivência são ativados em nosso cérebro quando nos preocupamos com dinheiro, trabalho, pressões diversas ou dores.

Nesse estado perturbado – alostatico -, as fontes corporais se exaurem, o sistema imunológico fica em suspensão, a adrenalina e o cortisol inundam a corrente sanguínea e na nossa mente permanecem apenas medo, frustração e ansiedade.
O modo reativo foi feito para durar pouco, devendo retornar rapidamente ao nosso estado de repouso. Por mais desagradáveis que sejam essas experiências, contanto que sigam um modelo evolucionário – rápidas, infrequentes e moderadas -, elas não terão consequências duradouras. Mas, infelizmente, muito da vida moderna viola esse modelo antigo. Mesmo que a maioria das pessoas não seja exposta a pressões intensas de fome, predação e conflitos letais, lidamos constantemente com estressores leves e moderados, como fazer muitas coisas simultaneamente, processar uma enorme quantidade de informações e estimulações ao mesmo tempo, correr para lá e para cá e trabalhar longos períodos, com quase nenhum tempo de recuperação entre essas atividades.

E devido aos viés negativo, essas experiências são rapidamente codificadas nas estruturas neurais. Ao mesmo tempo, as reações corporais ao estresse interrompem a recuperação e a renovação do corpo. As sensações desagradáveis do cérebro vermelho são um sinal de que devemos fugir desse modo o mais rápido possível, assim como evita-lo, se possível.

Muitos transtornos psicológicos envolvem tais reações. Por exemplo: – a ansiedade generalizada e social, agorafobia, transtorno de estresse pós-traumatico, TOC, transtorno dissociativo e pânico = sistema de evitação; abuso de susbstancias, dependência e adcção = sistema de abordagem; – apego inseguro, narcisismo, personalidade boderline, comportamento antissocial e consequências de abuso e negligencia infantil – sistema de conexão.

O fardo cumulativo das experiências reativas (cargo alostática) aumenta a inflamação, enfraquece o sistema imune e desgasta o cardiovascular. No cérebro, causa atrofia aos neurônios do córtex pré-frontal (CPF) e do hipocampo, prejudica a mielinização e reduz a síntese de neurotrofinas.

O que acontece quando emoções diferentes são evocadas?

Coletânea de estudos que se transformou no livro Upward Spiral, do neurocientista Alex Korb, mostra como o cérebro reage às emoções e de que forma a ciência pode prejudicar as pessoas a serem mais felizes.
Uma coletânea de estudos recentes apresentados no livro Upward Spiral (2015) (ainda sem tradução para o português), do meurocientista Alex Korb, da Universidade da Califórnia (UCLA), nos Estados Unidos, mostra o que acontece com nosso cérebro quando emoções diferentes são evocadas e como a ciência pode nos ajudar a sermos felizes.

Vergonha e Orgulho

Às vezes, parece que nosso cérebro simplesmente não quer que sejamos felizes, não é? Já reparou como emoções como vergonha e culpa parecem ser autoindulgentes? De acordo com pesquisadores alemães, liderados pela psicóloga Petra Michl, da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique, na Alemanha (2014), isso acontece porque tais sentimentos ativam nosso centro de recompensa no cérebro. Apesar das diferenças, orgulho, vergonha e culpa ativam circuitos neurais similares, incluindo o córtex pré-frontal dorsolateral (CPFDL), amígdala, insula e núcleo acumbente. Interessantemente, o orgulho é o sentimento que ativa de modo mais poderoso essas regiões, com exceção do núcleo acumbente (área central do sistema de recompensa), onde culpa e vergonha ganham (a autoindulgência). Isso explica porque é tão atraente o sentimento de culpa e vergonha que sentimos. A solução? Evoque a pergunta: pelo que sou grato? A gratidão ativa os sistemas dopaminérgicos no tronco encefálico e serotoninérgico no córtex cingulado anterior, nos forçando a enfatizar aspectos positivos da nossa vida.

Segundo a pesquisadora Lisa Shin, da Universidade Tufts, em Medford, nos Estado Unidos (2001), na verdade, preocupar-se ajuda a “acalmar” o sistema límbico através do aumento da atividade do córtex medial pré-frontal e redução da atividade da amígdala. Isso pode parecer contra intuitivo, mas apenas mostra que se você estiver se sentindo ansioso, fazer algo sobre isso – mesmo que seja preocupar-se – é melhor do que não fazer nada. Mas, cuidado, preocupação demais aumenta a ansiedade e a liberação de hormônios do estresse, como o cortisol.

Rotular é preciso

Está se sentindo mal? Tudo bem, apenas dê a esse sentimento ruim um nome. Tristeza? Ansiedade? Raiva? Não importa, apenas rotule-o. É simples assim. Em um estudo de imagem liderado pelo dr. Matthew Lieberman, da UCLA, intitulado “Colocando sentimentos em palavras” (2007), os participantes viveram imagens de pessoas com expressões faciais emocionais. De modo presumível, as amígdalas dos participantes ativaram-se em resposta às emoções das imagens. Mas, quando pediam que nomeassem essas emoções, o córtex pré-frontal ventrolateral (CPFVL) era ativado fortemente e reduzia a ativação da amígdala. Em outras palavras, reconhecer conscientemente as emoções reduz o impacto delas. Por outro lado, suprimir as emoções não funciona e pode sair pela culatra. O estudo também mostrou ativação significativa do sistema límbico durante a supressão de emoções, mesmo quando oos sujeitos pareciam estar bem, Para reduzir essa ativação, bastava que os voluntários usassem algumas palavras para descrever a emoção, idealmente, linguagem simbólica (metáforas, métrica e simplificação da experiência). Isso exige ativação do córtex pré-frontal (CPF).
Tome uma decisão

Já teve a sensação de que, após tomar uma decisão, você finalmente deu paz para o seu cérebro? Não é por acaso. A neurociência mostra que tomar uma decisão, além de ajudar a resolver um problema, reduz de forma significativa a preocupação e a ansiedade. Segundo Alex Korb, tomar decisões inclui o estabelecimento de metas. Tomar decisões muda sua percepção do mundo aumentando a flexibilidade cognitiva (procura por soluções) e reduzindo a atividade do sistema límbico.
Entretanto, tomar decisões é algo difícil. Que tipo de decisões devemos tomar? Mais uma vez a neurociência tem a resposta. Simplesmente, uma decisão boa o bastante. Não devemos suar a camisa tentando tomar a decisão 100% melhor, pois a tentativa de perfeição leva ao estresse e nos faz sentir fora do controle. Ainda segundo Korb, tentar a perfeição leva a um aumento exagerado de atividades do córtex pré-frontal ventrolateral (CPFVL) apenas para o processo de tomada de decisão. Em contrapartida reconhecer que “bom o bastante” ativa mais as áreas dorsolaterais do córtex pré-frontal, e que nos faz sentir mais em controle. Então, ao tomar uma decisão boa o bastante seu cérebro sente que tem o controle, e essa sensação reduz o estresse e aumenta a atividade no sistema de recompensa (prazer).

Quer a prova disso? Tomemos como exemplo a cocaína. Em um estudo recente (2013), pesquisadores do Departamento de Psicologia da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, deram a dois ratos injeções de cocaína. O rato A tinha que puxar uma alavanca. O rato B não precisava fazer nada. Alguma diferença? O rato A experimentou um aumento significativo de dopamina no sistema de recompensa.

Qual a explicação para essa diferença? Segundo o coordenador do estuo, dr. Lidan Gu, quando tomamos uma decisão baseada em um objetivo e depois o atingimos, nos sentimos muito melhor do que se aquilo acontecesse por acaso. E isso responde o mistério sobre por que se arrastar para a academia é tão difícil. Se você vai porque sente que “deve” ou “precisa”, então não é bem uma decisão voluntária, e seu cérebro não experimenta prazer, apenas estresse. E essa não é uma maneira certa de construir um bom habito de exercício. O mais interessante é que se você se forçar a fazer exercícios, não experimenta os mesmos benefícios, porque sem uma escolha o exercício também é uma fonte de estresse. A ciência por trás da tomada de decisão nos ensina que não apenas escolhemos o que gostamos, mas gostamos de escolher, e isso faz bem ao cérebro.

Pare de reclamar!

Quando as coisas dão errado em nossa vida tentamos liberar o estresse como uma chaleira solta vapor. Enquanto certamente há momentos nos quais devemos falar e levar atenção aos problemas sérios, a reclamação desnecessária e improdutiva tem efeitos negativos no cérebro. E os efeitos das pessoas que reclamam se espalham como gripe. O pesquisador Trevor Blake, em seu livro Three Simple Steps: a Map to Success in Business and Life (2012) (ainda sem tradução para o português), apresenta diversos estudo que mostram que reclamar não só tem impacto sobre como o córtex processa a informação, mas também tem efeito físico, destruindo neurônios do hipocampo, encolhendo-o. Segundo Blake, apenas alguns dias de reclamação e estresse têm efeito duradouro nos neurônio hipocampais, prejudicando a habilidade de criar novos neurônios. É isso que, na verdade, resulta no encolhimento dessa estrutura, causando declínios cognitivos na memoria e na habilidade em se adaptar a situações novas.

Mas reclamar dá uma sensação boa, não é? Isso porque reclamar funciona como um músculo. Quanto mais você reclama, mais neurônios fortalecem esse circuito, facilitando essa informação. Antes mesmo de notarmos, a reclamação se torna um hábito tão fácil para o cérebro que começamos a fazê-lo inconscientemente, sem registrar o comportamento.

O abraço e a ocitocina

Abraçar, abraçar e abraçar. Não, não indiscriminadamente ou você pode se meter em confusão. Mas temos uma enorme necessidade de sentir amor e aceitação dos outros. Quando isso não acontece o resultado pode ser extremamente doloroso. Não no sentido de constrangedor ou desapontador. Doloroso mesmo. Fisicamente doloroso.

Em um estudo na Universidade Duke, nos Estados Unidos (2003), pessoas tinham que passar entre elas uma bola. Os jogadores passavam a bola para você e você a passava de volta para eles. Mas os outros jogadores nunca passavam a bola aos sujeitos da pesquisa. O que aconteceu então? Os cérebros dos sujeitos responderam exatamente como se tivessem experimentado dor física. A rejeição não “dói” apenas como a dor de um coração partido, seu cérebro sente como se tivesse quebrado uma perna. A exclusão social ativa o mesmo circuito neural da dor física (o córtex cingulado anterior e a ínsula), explica o coordenador da pesquisa, Mark Leary.

As reações são, desse modo, muito importantes para a sensação de felicidade do cérebro. O neurocientista Alex Korb, em Upward Spiral, afirma que se quisermos levar a felicidade ao próximo nível, temos de tocar as pessoas. O toque é uma das maneiras simples e primarias de liberar ocitocina.

Gratidão e dopamina

Enquanto preocupação, reclamação, culpa e vergonha fazem mal para o cérebro, os neurocientistas afirma que o antídoto é se fazer constantemente essa pergunta: “pelo que sou grato?”. Gratidão aumenta os níveis de dopamina e serotonina no cérebro.
Outro efeito da gratidão é o aumento na transmissão de serotonina. Tentar pensar em coisas pelas quais você é grato força-o a se focar nos aspectos positivos da vida e essa simples ação aumenta a produção de serotonina no córtex cingulado anterior (CCA).

Claro, às vezes a vida é mesmo difícil e parece que não há nada pelo qual devemos ser gratos. Mas, adivinhe? Isso não importa. Segundo a ciência, é a procura que conta. É lembrar-se de procurar pelo que somos gratos que interessa. Lembrar-se de ser grato é uma forma de inteligência emocional. Os autores de um estudo sobre gratidão (2004), os pesquisadores Robert Emmen e Michael McCullough, das Universidade da Califórnia e de Miami, respectivamente, explicam que essa atividade de procura afeta a densidade neuronal nos córtex ventromedial e pré-frontal. Essas alterações na densidade sugerem que, à medida que essa inteligência emocional aumenta, os neurônios tornam-se mais eficientes. E, assim, com mais inteligência emocional, é preciso muito pouco para sermos gratos.

Os neurônios espiões

Tente. Respire sutil e lentamente. Uma sensação de calma se espalha. Agora respire tensa e freneticamente e sentira a tensão se acumulando. Por que isso acontece? É uma pergunta nunca antes respondida pela ciência… até agora.
Estudo recente da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos (2017), identificou um grupo de neurônios no tronco encefálico que conecta diretamente a respiração aos estados mentais. Especificamente a respiração ao relaxamento, atenção, euforia e ansiedade. O chamado “marcapasso respiratório”, esses subgrupos neuronais no centro respiratório (chamado de complexo Pre-Botzinger ou preBotC) é capaz de gerar tipos diferentes de respiração: normal, eufórica, de bocejo, suspirando, rindo, dormindo, soluçando, etc. Inicialmente, os cientistas, liderados pelo dr. Mark Krasnow, descobriram, por exemplo, que um desses subtipos era capaz de gerar o suspiro em ratos. Apenas uma respiração de suspiro e nada mais. E que se fosse eliminado somente esse grupo de 175 neurônios, os ratos não suspirariam nunca mais.

Então, os pesquisadores resolveram tentar a sorte de novo e eliminaram outro grupo de neurônios, esperando observar qual tipo de respiração seria interrompida. Mas eles verificaram que os ratos apenas relaxaram profundamente. Mesmo em ambientes novos e excitantes eles não apresentavam mais aquela respiração rápida e frenética que normalmente acompanhava essas situações, mas uma respiração profunda, sutil, seguida de um comportamento completamente relaxado. Os pesquisadores concluíram que, ao invés de regular a respiração, esses neurônios a espiavam e reportavam seus achados a outra área do tronco: o locus coeruleus, núcleos de neurônios que produzem norepinefrina e que enviam projeções a todo o cérebro, controlando os níveis de ativação cortical (vigília/sono, alerta, ansiedade e estresse). Quanto mais informações esses neurônios reportavam ao locus coeruleus, mais agitados e ativados ficavam os ratos e consequentemente menos relaxados . As mesmas estruturas já foram encontradas em humanos em pesquisas mais recentes.

Medite

Hoje, a meditação do tipo mindfuiness tem sido amplamente usada na terapêutica de diversas doenças, principalmente no tratamento de transtornos mentais como ansiedade e depressão.
Até recentemente, pouco se sabia sobre como algumas horas de reflexão calma por semana poderiam levar a uma amplitude intrigante de efeitos mentais e físicos. Agora, á medida que a popularidade do mindfuiness cresce, as técnicas de neuroimagem têm revelado que essa antiga pratica pode alterar profundamente o modo que algumas regiões do cérebro se comunicam entre si e – consequentemente – a maneira como pensamos.

Esses estudos têm demonstrado que, após oito semanas de meditação, o centro de “luta ou fuga” do cérebro, a amígdala, parece encolher. Essa região do cérebro, associada ao medo e á emoção, está envolvida no início da resposta do corpo ao estresse. À medida que a amígdala encolhe, o córtex pré-frontal – associado às funções cognitivas superiores, como percepção, concentração, julgamento e tomada de decisão, se torna mais denso. A conectividade funcional entre essas regiões, ou seja, o quão frequentemente são ativadas juntas, também é alterada. A conexão entre a amígdala e o resto do cérebro enfraquece, enquanto as conexões entre as áreas relacionada à atenção e a concentração se fortalecem. O grau dessas alterações está associado ao número de horas de meditação praticada. Parece que a prática de meditação aumenta a habilidade em recrutar regiões pré-frontais de ordens mais altas ao invés de regular para baixo a atividade cerebral de baixa ordem. Em outras palavras, nossas respostas mais instintivas ao estresse parecem ser substituídas por respostas mais conscientes e reflexivas.
As descobertas ficaram ainda mais interessantes quando os pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos (2009), resolveram estudar como os meditadores experientes experimentam a dor. Meditadores relatam sentir menos dor que os não praticantes, no entanto as imagens destes primeiros mostram um aumento de atividade cerebral em áreas associadas á dor.

Além disso, foram observadas também grandes reduções de atividade em áreas relacionadas à avaliação de estímulos, emoção e memória. Os pesquisadores, liderados pelo dr. Antoine Lutz, dizem que esses resultados não se encaixam em nenhum modelo clássico de alivio de dor, incluindo drogas, em que se vê menos atividade nessas áreas. Duas áreas que normalmente estão totalmente conectadas, o córtex cingulado anterior (CCA) (associado ao desprazer da dor) e partes do córtex pré-frontal (CPF) parecem estar desconectados. É como se eles fossem capazes de remover ou amenizar o estimulo aversivo associado à dor através da alteração na conectividade entre essas áreas, que normalmente estão totalmente conectadas. É importante notar que os sujeitos da pesquisa não estavam meditando quando foram submetidos ao estudo, ou seja, suas experiências de dor parecem ser uma alteração permanente em sua percepção.

Mova-se!

Nos últimos 20 anos, diversos estudos, incluindo investigações de larga escala, têm fornecido fortes evidencias para a associação deste exercício e saúde mental. A atividade física está relacionada a altos níveis de qualidade de vida em indivíduos saudáveis ou acometidos por transtornos mentais e doenças neurológicas degenerativas. Pesquisas demonstram uma redução significativa de sintomas emocionais e melhoras consideráveis das funções cognitivas de pacientes com variados transtornos mentais como depressão, ansiedade e estresse, além de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson. Mas o que acontece com o cérebro quando nos exercitamos? Que alterações neurobiológicas estão associadas a essas melhoras psicológicas e cognitivas?

De acordo com a dra. Deslandes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma das maiores autoridades em Neurociência em exercício no país, esses estudos mostram que o exercício agudo aumenta a síntese da maioria dos neurotransmissores no sistema nervoso central associados a diferentes complementos, como estado de alerta, (neuroepinefrina), sistema de recompensa, prazer (dopamina) e bem estar (serotonina), relaxamento (GABA). A atividade física ativa as chamadas monoaminas, dopamina, epinefrina, aumentando as chances de recuperação de transtornos como a depressão. De fato, os efeitos anti depressivos do exercício em humanos têm se mostrado tão potente quanto os de medicações como antidepressivos.
Além da alteração na comunicação entre neurônios através de neurotransmissores, o exercício também aumenta a produção dos chamados fatores neurotróficos, proteínas essenciais para sobrevivência, proliferação e maturação neuronal. Estudos mostram um aumento significativo na síntese dessas proteínas após o exercício. Algumas dessas neurotrofinas incluem o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), o fator de crescimento semelhante á insulina (IGF-1) e o fator de crescimento vascular endotelial (VEGF). O aumento na produção dessas proteínas está relacionado a neurogênese (produção de novos neurônios) na região do hipocampo (área relacionada à memória e aprendizado) e consequentemente melhora na cognição.

Momentos duradouros

Muitos autores afirmam que a felicidade não é um contínuo, mas feita de momentos e experiências. O que a ciência vem demonstrando, no entanto, é que nossos pensamentos, ações e comportamentos são capazes de alterar nosso cérebro, tornando esses momentos mais duradouros em nossas mentes, mudando de modo significativo a maneira como percebemos a nós mesmos, os outros e o mundo, deixando-nos mais felizes.

Nosso nível de felicidade é o resultado de uma complexa interação entre genes, comportamento, o que está acontecendo em nossa vida em um momento especifico. E, mesmo que cada um de nós tenha uma espécie de “teto genético” para felicidade, como acontece com o peso corporal, temos também a habilidade de alterá-lo, e essa é a contribuição mais significativa da ciência da felicidade: a descoberta de que, com essas estratégias, temos o poder de controlar nossa felicidade através da escolha pessoal de pensamentos, comportamentos e ações para que, com o tempo, possamos construir hábitos duradouros de aumento de resiliência e felicidade.

Artigo de Camila Ferreira Vorkapic, doutora em Psicologia (UFRJ) com Pós Doutorado em Neurofisiologia (UFS).

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Insônia pode ser causa (e não sintoma) da depressão

Segundo um novo estudo, pessoas que receberam tratamento contra a insônia tiveram 20% menos chances de desenvolver depressão e ansiedade

Acredita-se que a falta de sono prejudique a saúde mental porque não permite que o cérebro processe as novas memórias adquiridas e organize as mais antigas – o que pode colocar a pessoa em um ciclo vicioso de pensamentos negativos e repetitivos. (//iStock)

Quem tem dificuldade para dormir à noite pode estar em maior risco de desenvolver depressão e ansiedade. De acordo com um novo estudo publicado no periódico científico The Lancet Psychiatry, a insônia, que antes era vista como sintoma, pode ser, na verdade, a causa dessas doenças.

O estudo
No estudo, cerca de 3.890 pessoas que enfrentavam problemas para dormir foram divididas em dois grupos. O primeiro, depois de passar pela terapia cognitivo-comportamental, que visa reduzir fatores comportamentais que levam à insônia, apresentou 20% menos risco de sofrer de ansiedade e depressão, além de noites de sono 50% melhores, em relação ao outro grupo que não recebeu nenhum tipo de tratamento.

Como estratégia da terapia, os participantes foram aconselhados a manter diários, para registrar a progressão do sono ao acordar, ouvir fitas de relaxamento e não utilizar a cama para outras tarefas além de dormir, por exemplo.

Causa, não sintoma
“Os problemas de sono são muito comuns em pessoas com distúrbios mentais, mas por muito tempo a insônia foi banalizada como um simples sintoma. Esse estudo transforma essa velha ideia, mostrando que a insônia pode contribuir para o surgimento de problemas da saúde mental”, disse Daniel Freeman, principal autor do estudo, em nota.

Fonte: Veja.com

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