Terapia pode ser solução para dependentes químicos

O objetivo da terapia de grupo, principalmente nos casos de dependência, é proporcionar um entendimento mais amplo do self e do efeito que um indivíduo tem sobre as outras pessoas do grupo, avaliando o efeito dos outros sobre o indivíduo. Os dependentes aprendem sobre si mesmos a partir do coordenador do grupo e dos outros membros. Eles podem descobrir como seu comportamento e atitudes são frequentemente autoderrotistas e destrutivos, fazendo com que sejam erroneamente compreendidos pelas outras pessoas e fazendo com que os outros os compreendam erroneamente. Um grupo coeso, acolhedor, onde os pacientes são recebidos por coordenadores abertos para a especificidade de suas vivências, pode ser um profundo encorajamento, ajudando-os a formular discursos e demandas que favoreçam a construção ou reconstrução de um recorte específico, dentro de um tema complexo, que se inicia quando o indivíduo se coloca em relação ao outro e não mais em relação ao objeto de dependência. O grupo pode ser um articulador de encontros; é primordial que se criem espaços grupais terapêuticos, onde haja facilitação para construção de uma demanda que sustente o caos onde o dependente normalmente está inserido.

terapia de grupo promove o desenvolvimento dos relacionamentos interpessoais e do apoio mútuo entre os dependentes; isto é, pode ser especialmente útil na medida em que muitos deles decidem cortar o contato com seus antigos companheiros de adicção. Os fenômenos de transferência são mais fáceis de manejar dentro de um grupo do que muitas vezes em terapias individuais. No grupo, a dependência do terapeuta é menos pronunciada do que num setting individual e tende a diluir entre os outros membros. O grupo permite aos dependentes examinarem seus relacionamentos interpessoais e suas habilidades sociais. Uma vez que a negação é um mecanismo de defesa frequentemente utilizado pelos dependentes (Amodeo, 1990), a confrontação dessa negação pode ser mais efetiva em um ambiente onde não exista apenas o terapeuta para intervir, mas também uma interação grupal.

Alguns fatores foram desenvolvidos por Yalon (1975) e modificados subsequentemente por Block e colaboradores (1979) e Block e Crouch (1985), para a estruturação de um trabalho útil em grupos: aceitação (o paciente se sente aceito pelo grupo, uma parte integral da coesão); altruísmo (capacidade de ajudar outros membros do grupo); universalidade (sentir que estamos “todos no mesmo barco”); instalação da esperança (de um resultado bem-sucedido); aprendizagem por substituição (pela observação da interação entre os membros do grupo); orientação (informação ou conselhos recebidos dentro do grupo); autoentendimento; aprendizagem a partir de ações interpessoais (aquisição de comportamentos mais adaptativos dentro do grupo); autorevelação e catarse.

Há inúmeras denominações diferentes a uma mesma finalidade grupal. Assim, muitos autores costumam catalogar os grupos de acordo com a técnica empregada pelo condenador e com o tipo de vínculo que ele estabeleceu com os indivíduos integrantes. Exemplo disso é o conhecido critério de classificar os quatro tipos seguintes: pelo grupo (o qual, funciona gravitando em torno do líder, através do recurso da sugestão ou de uma identificação com ele, como nos grupos Pratt ou nos Alcoólicos Anônimos etc.); em grupo (as interpretações são dirigidas ao indivíduo. De certa forma, é um tratamento individual de cada membro na presença dos demais); do grupo (o enfoque interpretativo está sempre dirigido ao grupo com uma totalidade gestáltica); de grupo (a atividade interpretativa parte das individualidades para a generalidade e desta para os indivíduos).

Para os dependentes, a família é primordial e um fator crítico no tratamento. Sua abordagem é um procedimento fundamental nos programas terapêuticos. Sendo assim, as famílias de dependentes também se beneficiam dos atendimentos grupais. Laquer (1951) criou o “Grupo Multifamiliar”, adaptando as técnicas de terapia de grupo para dirigir à reestruturação dos padrões de relacionamento familiar. O Grupo Multifamiliar tem sido utilizado como coadjuvante no tratamento de vários problemas psiquiátricos e de comportamento, tem se evidenciado como um instrumento terapêutico com resultados positivos, especialmente quando integrado a um programa mais abrangente (Stanton; Toddy, 1985).

Adaptado do texto “Terapias de Grupo”

*Thais P. Gracie Maluf é psicóloga e psicoterapeuta familiar e casal, com mestrado em Ciências da Saúde e especialização em Terapia Familiar pela Universidade Federal de São Paulo – Unifesp. Atuou como coordenadora do setor de atendimento às famílias de dependentes no Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes, Proad (Unifesp). Preceptora e supervisora do Programa de Residência Multi do Departamento de Psiquiatria da Unifesp. Coordenou e supervisionou o programa de estágio de psicólogos e professora dos cursos de especialização e capacitação do Proad. Experiência na área das dependências químicas e de comportamentos, com enfoque no tratamento psicoterápico individual e grupal.

Fonte: psiquecienciaevida

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O disléxico precisa de uma aprendizagem diferenciada

A psicopedagoga e psicoterapeuta desfaz os mitos sobre dislexia e afirma que um processo de aprendizagem cinestésico e integrativo auxilia muito a melhorar o desempenho do aluno que sofre desse tipo de distúrbio.

Atividades como a leitura servem como porta de entrada e chave de acesso a uma série de conhecimentos ao longo da vida. Contudo, um grande número de crianças e adolescentes enfrenta dificuldades para ler e, hoje, uma das causas mais frequentes de mau desempenho nos estudos é a dislexia. Trata-se do transtorno de aprendizagem mais comum entre a população escolar, sendo referida uma prevalência entre 5 e 17,5%.

A psicopedagoga, psicoterapeuta e especialista em Medicina Comportamental, Lou de Olivier, dedicou praticamente toda sua vida ao estudo, pesquisas e tratamento da dislexia. Ela faz questão de ressaltar a grande quantidade de mitos e equívocos que envolvem o distúrbio, o que acarreta, inclusive, em uma quantidade significativa de diagnósticos errados.

“São tantos os equívocos que nem tenho como citar todos. A maioria surgiu em pesquisas científicas, mas que foram descontinuadas. Quero afirmar, com isso, que alguns pesquisadores defendem um tema com um determinado enfoque e, na sequência, abandonam o tema ou por terem seguido outros ou por perceberem que estavam errados ou por diversos outros motivos. Nesse ritmo, cria-se um mito que vai se perpetuando e quem mais sofre com isso é o paciente, que acaba submetido a tratamentos ineficientes, obsoletos e, quase sempre, fundamentados em uma única tese inicial”, revela Lou.

Ela também é multiterapeuta, bacharel em Artes Cênicas e Artes Visuais, além de pioneira na prospecção da dislexia adquirida e criadora do método terapia do equilíbrio total/universal.

Quais são os principais mitos que envolvem a dislexia, por que surgiram e o que fazer para desmistificá-los?

Lou: São muitos os mitos em relação à dislexia. Os mais comuns são: hereditária/genética – isso coloca a dislexia como sendo de um único tipo, ocorrendo em famílias propensas. De fato, esse tipo de dislexia existe, mas é um dos diversos tipos. Há outros tipos e classificações, que dependem, inclusive, da linha de pesquisa da neuropsicologia, da psicopedagogia, da multiterapia, entre outras. Entre os diversos tipos que são renegados no Brasil está a adquirida. Apesar de ser aceita oficialmente pela Ciência da Saúde, ainda é questionada e até mesmo desconhecida pela maioria dos profissionais de saúde no país. Outro grande mito é a “troca de letras”, supostamente característica da dislexia.

Cita-se a troca “p” com “b” ou “d” com “q”, quando, na verdade, há ausência de identificação e não troca de letras. Há quem cite omissões e outras características mais próprias da dislalia como sendo dislexia. Embora a dislalia seja uma dificuldade/disfunção na linguagem oral, ela pode interferir na aquisição da leitura/escrita. Então, a criança faz omissões e/ou substituições e/ou distorções e/ou acréscimos de sons. Isso é característico de dislalia, mas tem sido divulgado como dislexia. Há quem confunda sintomas da síndrome de Irlen com dislexia. Há também a afirmação equivocada sobre a maior incidência em meninos pela questão da testosterona. Essa afirmação já foi descartada na década de 1980, mas ainda é citada. São tantos os equívocos que nem tenho como citar todos. A maioria surgiu em pesquisas científicas, mas que foram descontinuadas. Quero afirmar, com isso, que alguns pesquisadores defendem um tema com um determinado enfoque e, na sequência, abandonam o tema ou por terem seguido outros ou por perceberem que estavam errados ou por diversos outros motivos. Nesse ritmo, cria-se um mito que vai se perpetuando e quem mais sofre com isso é o paciente, que acaba submetido a tratamentos ineficientes, obsoletos e, quase sempre, fundamentados em uma única tese inicial. Para desmistificá-los, penso que os interessados, ou seja, pais, professores, estudantes e profissionais de saúde, devem buscar informações seguras e filtrá-las. Não acreditando em tudo que está publicado ou divulgado.

Quais as causas psíquicas que contribuem para o desenvolvimento da dislexia?

Lou: No passado, acreditava-se que a dislexia causasse alteração hemisférica, com o hemisfério direito “maior” que o esquerdo. Esse é outro mito dos mais bizarros. No ano 2000, comprovei que, na verdade, havia apenas maior excitação ou inibição dos hemisférios e isso podia ser medido e equilibrado por aparelhos sofisticados em uso inclusive no Brasil. Ou seja, era a chance dos disléxicos se submeterem a exames e tratamentos muito mais sofisticados e eficazes. Apesar de receber apoio de importantes médicos que receberam muito bem minhas teorias, também dessa vez fui muito criticada pela “maioria” e tive restrições às minhas pesquisas. Mesmo assim, consegui provar a questão da maior ou menor excitabilidade hemisférica. E o comprometimento de algumas áreas cerebrais no processo alterado de leitura (dislexia). Em 2003, publiquei um livro chamado Distúrbios de Aprendizagem/Comportamento – Verdades que Ninguém Publicou, que trazia muitas novidades importantíssimas na detecção e tratamento da dislexia. Esse livro continua a ser editado, com o título Distúrbios de Aprendizagem e de Comportamento. Hoje, o que se aceita é que há, basicamente, três caminhos neurais para a leitura, localizados tanto na parte anterior quanto posterior do cérebro, sendo responsáveis pelo reconhecimento, análise e forma das palavras. Além disso, há um quarto “canal”, que pode ser acionado em situações que exigem articulação e análise simultânea das palavras. Esses caminhos constituem um sistema em que cada “canal” tem sua função na leitura e é ativado de acordo com a necessidade do leitor. Os disléxicos apresentam falha nesse circuito. Enquanto os considerados leitores “normais” utilizam as partes anterior e posterior do cérebro, o disléxico apresenta uma inibição ou subativação de caminhos neurais da parte posterior e uma excitação ou superativação da parte anterior do cérebro. O resumo é que essa falha na parte posterior do cérebro causa a incapacidade de transformar as letras em sons, ao analisarem as palavras, e o não reconhecimento rápido e automático das palavras.

Você é pioneira no estudo da dislexia adquirida. O que difere esta da dislexia convencional?

Lou: Preciso afirmar que, hoje, é aceita oficialmente, pela Ciência da Saúde, a dislexia adquirida por infarto da artéria cerebral posterior e outras doenças cerebrais. Entendo isso como uma vitória, depois de quase 40 anos que afirmo essas ocorrências. Ainda defendo a dislexia adquirida por anoxia perinatal/hipoxia neonatal e geral, mas creio que em breve também serão aceitas oficialmente. O que falta é essa informação chegar ao maior interessado que é o paciente e, também, aos profissionais que atuam tratando dislexia e outros distúrbios de aprendizagem. Em relação às diferenças, a convencional pode ser considerada possivelmente hereditária/genética, que faz com que algumas famílias sejam propensas ao distúrbio, ou seja, se o pai ou a mãe tem dislexia, os filhos têm mais probabilidade de apresentar dislexia. A adquirida é considerada quando há uma lesão ou choque (trauma) causados por acidente (pode ser um AVC, anoxia perinatal/hipoxia neonatal ou geral etc.). Outra diferença é na forma como se manifesta. A considerada convencional causa dificuldade ou ausência de aquisição de leitura. A adquirida causa perda da capacidade de leitura, ou seja, o indivíduo que antes lia com facilidade perde essa habilidade por causa de um acidente (lesão/choque). Aqui, cabe uma explicação: eu considero dislexia apenas distúrbio de leitura, e não de leitura e escrita, como alguns pesquisadores classificam. Penso que para definir distúrbio de escrita já há a disgrafia e a disortografia.

Adaptado do texto “O disléxico precisa de uma aprendizagem diferenciada”

*Lucas Vasques é jornalista e colabora nesta publicação.

Fonte: psiquecienciaevida

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Felicidade está firmada em colecionar bons relacionamentos e paz interior

É certo que não há receita para a felicidade e, também, não se podem generalizar as formas de se evitar o contrário: a infelicidade. No entanto, existem determinados procedimentos específicos que podem ajudar nesses dois quesitos. Essa é a especialidade da psicóloga Maria Tereza Maldonado.

“Podemos aprender a ser mais felizes, mesmo em épocas difíceis da vida! Felicidade não é ausência de problemas. O estado consistente de felicidade serena pode ser mantido mesmo quando enfrentamos perdas e dificuldades. É uma habilidade que pode ser treinada por meio das escolhas conscientes que fazemos a cada dia, de nossas ações, da qualidade dos pensamentos que nutrimos e dos relacionamentos que cultivamos”, afirma Maria Tereza.

Nas pesquisas sobre satisfação é muito comum observarmos uma grande quantidade de pessoas que garantem estar satisfeitas com a vida que levam. É difícil assumir a infelicidade? As pessoas tendem a achar que ser infeliz é um fracasso pessoal? Por quais razões?

Maria Tereza: Há pessoas realmente satisfeitas com a vida que levam. Constatei isso na pesquisa que fiz para o livro, pois entrevistei 190 pessoas entre 12 e 96 anos, em diferentes cidades em todas as regiões do Brasil. Os depoimentos de muitas pessoas que vivem uma vida simples, nas camadas populares em cidades do interior, em contato com a natureza e com tempo para cultivar bons relacionamentos, revelam genuína satisfação com a vida. Mas, sim, há pessoas que escondem infelicidade por temer que isso signifique fracasso, especialmente quando se apresentam nas redes sociais.

Você acha que hoje estamos vivendo sob a ditadura da felicidade?

Maria Tereza: Em alguns contextos, observo essa ênfase na busca permanente da felicidade, porém muito ligada a noções equivocadas, tais como imaginar que isso poderia ser um eterno clima de festa, ganhos materiais ou sucesso profissional sempre em ascensão. Nesses casos, perde-se a noção de que a construção da felicidade é um trabalho interior, de treinar a mente por meio das escolhas conscientes que fazemos a cada dia, de nossas ações, da qualidade dos pensamentos que nutrimos e dos relacionamentos que cultivamos.

A infelicidade diz alguma coisa da nossa época?

Maria Tereza: Sim, principalmente quando criamos a expectativa de que a felicidade depende de condições externas (“só vou ser feliz quando conseguir comprar uma casa”), o que dificulta valorizar e saborear os bons momentos da vida presente. O consumismo, que cria desejos incessantes e estimula a ganância, a competição desenfreada de ter que derrotar os outros para poder se destacar, a sensação de inferioridade que se acentua quando a pessoa passa horas nas redes sociais, reforçando a ideia de que a vida dos outros é muito melhor do que a sua, são alguns dos aspectos da cultura vigente que colaboram para a tecelagem da infelicidade.

Você saberia dizer se a infelicidade é uma das principais ocorrências no atendimento clínico de saúde mental?

Maria Tereza: Sim, a infelicidade sob a forma de insatisfação crônica, ansiedade, depressão, revolta. Sob essas camadas de sentimentos, percebem-se hábitos mentais que prejudicam a saúde emocional, como, por exemplo, apegar-se ao passado, ter medo de mudar e nutrir excessiva preocupação com o futuro.

Qual a importância da infelicidade?

Maria Tereza: Para perceber o dia é importante perceber a noite. Ninguém vive o tempo inteiro em um “mar de rosas”. Problemas são oportunidades de desenvolver recursos para viver melhor. Mergulhar em si mesmo para perceber o “recado” da infelicidade pode abrir caminhos para sair desse estado, vendo o que é preciso desenvolver em si mesmo e nos seus relacionamentos mais significativos.

Na sociedade contemporânea, um dos elementos que mais provocam infelicidade e angústia é o cyberbullying. Como você observa esse fenômeno recente?

Maria Tereza: Esse é um problema sério, que surge da deficiência de uma educação em valores fundamentais para construir um bom convívio baseado no respeito pelos outros e pela diversidade das pessoas. Surge também da confusão do conceito de liberdade de expressão, ignorando que o estímulo às redes de ódio, às agressões desmedidas e à perseguição implacável não é conduta aceitável.

Maria Tereza é mestre em Psicologia pela PUC-Rio, membro da Associação Brasileira de Terapia Familiar (Abratef) e palestrante. É autora de 40 livros publicados, a maioria discutindo temas relacionados à felicidade, relações familiares, desenvolvimento pessoal, gestão de conflitos e construção da paz. Entre eles, Construindo a Felicidade. A Ciência de Ser Feliz Aplicada no Dia a Dia, A Face Oculta – uma História de Bullying e Cyberbullying e Bullying e Cyberbullying. O que Fazemos com o que Fazem Conosco?

No mais recente, Construindo a Felicidade. A Ciência de Ser Feliz Aplicada no Dia a Dia (Ideias e Letras Editora), Maria Tereza entrevistou 190 pessoas, de 12 a 96 anos, em diversas cidades de todas as regiões do Brasil. Além disso, analisou os resultados de pesquisas e conceitos teóricos de estudiosos de muitos países sobre a construção da felicidade e do bem-estar em diversas áreas, tais como tradições milenares, Psicologia Positiva, Antropologia, Neurociência, Filosofia e Economia.

Adaptado do texto “Fábrica de frustrações”

*Lucas Vasques é jornalista e colabora nesta publicação.

Fonte:Psiquecienciaevida

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Psicoterapia funciona melhor pela manhã

Níveis altos do cortisol são fator importante para a superação de medos irracionais, e com a elevação natural desse hormônio pela manhã, é mais fácil vencer a ansiedade ao se expor a uma situação temida

Imagine um coelho sedento que para em um riacho para sorver alguns goles de água e, quando menos espera, recebe um bote de uma raposa. Desesperado, o coelho corre e consegue fugir do predador. Seu coração dispara freneticamente e seu corpo é sacudido pela resposta de luta ou fuga, que nesse caso salvou sua vida ao mobilizar um conjunto de reações que são adaptativas em emergências.

Agora imagine o mesmo coelho ao beber água novamente nesse riacho. Dessa vez, ele já foi alertado pela sua memória de que existe perigo de vida e que é melhor estar em alerta. Essa é uma função importante do aprendizado e memória, nos alertar sobre riscos. Por essa razão, quando temos reações emocionais fortes, é importante lembrar do que aconteceu para evitar os perigos e sobreviver melhor.

De forma geral, o aprendizado e memória em eventos de emoção são aumentados, em função dos hormônios que são liberados sob estresse. Quando o nível emocional é muito elevado, como em situações de estresse traumático, pode ocorrer uma reação contrária, com diminuição da memória consciente e aumento da memória inconsciente.

Os hormônios de estresse em grandes quantidades, em especial o cortisol, podem reduzir a atividade do hipocampo, estrutura do cérebro que registra memórias conscientes, e aumentar a atividade da amígdala, que armazena memórias emocionais inconscientes. Faz sentido, pois as memórias conscientes do trauma são devastadoras, enquanto as memórias inconscientes não produzem tanto sofrimento mental, mas fazem o organismo se comportar de forma adaptativa.

Em situações de emoção normal, que não seja traumática, o cortisol facilita a formação de memórias e leva o sujeito a aprender mais facilmente. Nesse caso, se o aprendizado é corretivo, isto é, visa reaprender uma nova resposta perante uma circunstância encontrada anteriormente, o cortisol também facilita a aquisição do novo aprendizado.

No caso de pacientes que têm transtornos de ansiedade, uma das técnicas mais eficazes é a terapia de exposição, na qual o sujeito é levado a permanecer em contato com um estímulo inofensivo que aprendeu a temer até que seu cérebro registre que aquilo não é de fato perigoso.

A exposição é usada no mundo todo e considerada uma das mais eficazes técnicas de psicoterapia. Como exemplo, podemos citar uma pessoa que tem fobia de avião (aviofobia) e que pode pensar que vai perder o controle, ter falta de ar e uma ataque de ansiedade intolerável.

Permanecendo dentro do avião por um tempo prolongado, a pessoa vai aprendendo que o que teme não ocorre e gradualmente o nível da ansiedade começa a cair até normalizar. O que acontece é um reaprendizado, ou aprendizado corretivo, de que aquele contexto ou ambiente não é, na realidade, perigoso.

*Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).

 

Fonte: psiquecienciaevida

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Falta de sono pode prejudicar controle dos movimentos do corpo

“Jetlag social” causado por privação de sono no dia a dia pode provocar problemas de atenção em tarefas simples

A falta de sono no dia a dia também pode causar problemas de atenção e concentração em pessoas aparentemente saudáveis, fenômeno conhecido como “jetlag social”, comprova pesquisa com participação da Escola Politécnica (Poli) da USP. Em testes realizados com estudantes, o desempenho em tarefas simples que exigem controle dos movimentos do corpo era melhor às segundas-feiras, após as horas de sono compensadas no final de semana. A descoberta pode ajudar a entender quais as áreas do cérebro são afetadas pela privação de sono, comprometendo o controle corporal.

O professor Arturo Forner Cordero, que coordenou a pesquisa, conta que o Laboratório de Biomecatrônica da Poli estuda a modelagem do controle motor humano para a aplicação em robôs e exoesqueletos. “Para isso, são realizadas experiências de controle motor, como, por exemplo, simular tarefas de aprendizado, controle dos movimentos das mãos, em caminhadas e de postura”, diz. “Esses testes costumam ser realizados com alunos de graduação. Em determinados períodos, como no final dos semestres letivos, porém, o desempenho dos estudantes era ruim e não havia ideia do motivo.”

Os pesquisadores realizaram um experimento com alunos do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais, em Barbacena. “Os estudantes utilizaram durante nove dias um actímetro, um relógio de pulso que mede a atividade física e distingue os períodos de sono, repouso, vigília e atividade, os quais são registrados em um gráfico”, explica o pesquisador Guilherme Umemura, que integrou o grupo de estudos. “Também foram aplicados questionários sobre hábitos diários, para complementar a avaliação sobre restrições de sono.”

Nas sextas e segundas-feiras foram realizados testes de controle postural. “Os participantes eram instruídos a ficarem em cima de uma plataforma e eram submetidos a vários desafios estáticos e dinâmicos, como abrir e fechar os olhos”, diz Umemura. “O corpo humano, quando está em pé, nunca está totalmente parado, ele se movimenta em várias direções, e isso envolve mecanismos de controle do cérebro, como os da visão e da audição, por isso é importante o controle postural”, explica o professor.
“Jetlag” social

Os experimentos mostraram que o desempenho no controle postural era melhor na segunda-feira, depois do final de semana. “Acredita-se que as obrigações sociais reduzem os períodos de sono, o que pode levar a problemas de atenção e concentração, além de mudanças abruptas nos horários de dormir e sonolência. Esse fenômeno é chamado de ‘jetlag social’”, aponta Umemura.

“Nos finais de semana, em geral há uma compensação das horas de sono e, coincidentemente, o desempenho nos testes era melhor”, ressalta o pesquisador. “As comparações entre as respostas dos questionários e os gráficos de atividade e repouso revelaram uma diferença de aproximadamente duas horas entre o tempo de sono considerado ideal pelos alunos e a quantidade de sono apurada nos gráficos.”

De acordo com o professor, a hipótese para explicar o problema é que as áreas do cérebro mais sensíveis à privação do sono são as responsáveis pela cognição e pela integração sensorial. “Essas áreas são o córtex pré-frontal, responsável pela cognição e o planejamento motor; o tálamo, que da integração sensorial, que teria sua atividade diminuída”, descreve, “e o cerebelo, que faz o controle em tempo real do movimento; em resumo, todos esses processos possivelmente estão envolvidos no déficit motor.”

Forner Cordero alerta que é surpreendente encontrar problemas de controle postural em pessoas jovens e saudáveis, mas que não percebem a privação de sono. “Este não foi um estudo em que as pessoas ficam sem dormir, elas pensam que estão dormindo bem, mas a diferença no controle postural é significativa”, ressalta. “Também não são pessoas com restrições declaradas de sono, como trabalhadores de turnos. O estresse na qualidade e na quantidade do sono possivelmente traz malefícios ainda piores, como o aumento do risco de quedas, acidentes laborais e de trânsito.”

O estudo é descrito no artigo Social jetlag impairs balance control. Escrito por Guilherme Silva Umemura, João Pedro Pinho, Bruno da Silva Brandão Gonçalves, Fabianne Furtado e Arturo Forner Cordero, o texto foi publicado na revista Scientific Reports em 21 de junho. Além dos testes relatados no estudos, outros experimentos para avaliar desempenho motor e aprendizagem em pessoas com restrições de sono estão em andamento.

Fonte: Jornal.usp

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Piauí terá palestras sobre a importância do sono para a saúde

Em março é comemorado o Dia Mundial do Sono. Trata-se de um esforço global para aumentar o conhecimento da população sobre os inúmeros problemas de sono que acometem toda a população e são frequentemente negligenciados ou simplesmente desconhecidos.

A Associação Brasileira do Sono organiza anualmente a Semana do Sono, que ocorre do dia 13/03 a 19/03 em todo o território nacional. O tema deste ano é: “Respeite seu sono e siga seu ritmo”. No Piauí, três eventos devem marcar a semana: um em Picos e dois em Teresina.

O objetivo é divulgar para toda a população informações importantes, novidades e últimas pesquisas que poderiam ser úteis para o sono de todos.

Em Picos, na próxima quarta-feira (14) o professor do curso de Medicina da Universidade Federal do Piauí, campus Picos, vai ministrar uma palestra sobre “Sono e Desempenho Acadêmico”, às 16h no auditório Severo Eulálio, no Campus Senador Helvídio Nunes de Barros/UFPI.

Já em Teresina, no sábado (17) das 8h às 12h30 haverá várias palestras sobre o tema no Hospital São Marcos e a tarde no Parque Potycabana, das 14h às 17h. Todos os eventos são gratuitos e abertos à população em geral.

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