Artigo: Exercícios combatem transtornos de humor

Aumento progressivo desses distúrbios, chegando a 20% da população mundial, pode ser evitado pelos efeitos benéficos que as atividades físicas exercem sobre o sistema nervoso central.

Nas últimas décadas observou-se um progressivo aumento da prevalência de transtornos de humor na população adulta mundial. As últimas estimativas mundiais para a preponderância desses transtornos são significativamente altas cerca de 20%. Isso significa que um grande número de pessoas experimentará algum tipo de transtorno de humor ou ansiedade em algum período da vida, de maneira contínua ou recorrente. Algumas condições como estresse, ansiedade, depressão, fobias, transtornos compulsivos e pânico compreendem uma boa parte dos transtornos mentais observados.

O estresse e a ansiedade excessiva são os componentes-chave ou sintomas comuns em quase todas essas condições. O estresse é frequente em adultos relativamente saudáveis e tem sido associado a consequências negativas na saúde, absenteísmo e redução na produtividade profissional. Uma compreensão mais ampla da etiologia dos problemas relacionados ao estresse inclui uma multiplicidade de fatores: biológicos, psicológicos e sociais; todos mediados por fatores de risco e proteção.

O tratamento atual para transtornos de humor inclui intervenções terapêuticas e farmacológicas, ambas embasadas por grande quantidade de evidências empíricas através de estudos controlados. No entanto, muitos indivíduos acometidos por esses transtornos acabam não procurando ajuda profissional, o que indica a necessidade de criação de autoestratégias complementares apropriadas e confiáveis.

Além disso, tanto pacientes quanto pesquisadores concordam em dois pontos: não é satisfatório passar uma vida inteira fazendo uso de medicamentos e as estratégias terapêuticas tradicionais podem ser extremamente custosas, se realizadas durante longo período. Ensaios clínicos vêm demonstrando que tanto drogas ansiolíticas quanto antidepressivos têm eficácia limitada em longo prazo, causam dependência e sonolência, afetam cognição e memória e produzem disfunção sexual.

Existe uma diversidade de abordagens terapêuticas tradicionais para o tratamento de transtornos mentais, mas muitas vezes os pacientes preferem procurar intervenções complementares por diversos motivos, tais como efeitos adversos da medicação, falta de resposta ao tratamento, alto custo das psicoterapias ou simplesmente preferência por alguma intervenção complementar específica.

As últimas duas décadas de estudos vêm demonstrando que os resultados neuroquímicos observados podem ser traduzidos em melhorias nas funções cognitivas e na saúde mental, tanto de indivíduos saudáveis quanto de pacientes acometidos por transtornos mentais. O efeito significativamente benéfico do exercício no sistema nervoso central e o fato deste representar uma completa reformulação do estilo de vida, e uma ação efetiva de promoção de saúde e prevenção de doenças, fazem do exercício a estratégia terapêutica mais promissora no tratamento de transtornos mentais.

Depressão

A depressão é um dos maiores problemas de saúde pública do mundo. Sua incidência é estimada em aproximadamente 20% da população mundial. Além disso, somente 30% a 35% dos pacientes depressivos respondem ao tratamento com psicofármacos. Estudos mostram que o tratamento farmacológico reduz em cerca de somente 50% os sintomas relacionados, e que o exercício pode ser considerado eficaz no tratamento da depressão.

Estudos que utilizaram o exercício como intervenção terapêutico na depressão concluíram que o grupo que pratica exercício apresenta maior recuperação e menor recaída do que os outros, e quanto maior for o tempo gasto com exercícios, menores serão os níveis de depressão. Embora apresentem resultados significativos no tratamento da depressão os mecanismos pelos quais a atividade física proporciona efeitos antidepressivos são ainda especulativos. Os benefícios são similares àqueles alcançados com antidepressivos e são dependentes da “dose”, ou seja, melhorias mais significativas estão associadas a maiores níveis (frequência) de exercício.

Pessoas com depressão apresentam alterações no fluxo sanguíneo e no metabolismo do córtex pré-frontal, aumento do metabolismo de glicose na amígdala (aprendizado emocional/ medo e ansiedade), secreção aumentada de cortisol e alterações cognitivas como comprometimento na atenção, memória, velocidade de processamento, função executiva e emoção. Um dos fatores que podem explicar o déficit de memória na depressão é a alteração na atividade hipocampal, em consequência do excesso do excesso de cortisol, da redução de fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) e da neurogênese.

O exercício físico contribui para o desenvolvimento da neurogênese no hipocampo através do aumento na produção de BDNF, IGF-1 e VEGF e da potencialização de longa duração (consolidação de memórias). Além disso, também está comprovadamente relacionado ao aumento na liberação de endorfinas, serotonina, dopamina e noradrenalina. Todos esses fatores contribuem para a manutenção e reparação de saúde mental. De modo geral, e tendo em vista os benefícios físicos e psicológicos do exercício, é possível concluir que sua prática por indivíduos depressivos é capaz de prevenir e reduzir significativamente os sintomas de depressão.

O efeito do exercício na saúde mental e nas funções cognitivas fez com que os pesquisadores voltassem a atenção ao possível impacto da atividade física no cérebro de pacientes acometidos por doenças neurodegenerativas. O Alzheimer hoje é a forma mais comum de demência em idosos, acometendo cerca de 50% dos nonagenários. As alterações fisiopatológicas, como acúmulo de placas senis e emaranhados neurofibrilares , estão relacionados à diminuição do volume cerebral, do número de neurônios, do número de sinapse e da extensão das ramificações dendríticas.

Estudos em animais verificaram que o exercício aumenta a expressão de BNDF, IGF1 E VEGF. Como já mencionado, o BNDF é um importante regulador de plasticidade neural, e níveis reduzidos dessa substância causam redução da plasticidade sináptica em área do cérebro afetadas pelo processo de envelhecimento. Uma redução nos níveis de IGF-1 no cérebro também pode contribuir para o declínio das funções cognitivas durante o envelhecimento.

Regulação

Por outro lado, o exercício é capaz de regular para cima as concentrações de IGF-1 e BNDF no cérebro. Estudos sugerem também que o aumento do fluxo sanguíneo cerebral e maior metabolismo cerebral da glicose, em consequência do exercício , tenham relação com a degradação da proteína-amilóide, cujo acúmulo é responsável pela morte de neurônios colinérgicos no Alzheimer. Indivíduos com Alzheimer mostram melhoras em escalas de atividades cotidianas, em testes cognitivos, sintomas depressivos e funções físicas, comparados aos que não se exercitam, cujas funções continuam a declinar. Além disso, o exercício influencia fatores de risco associados à demência , tais como a resistência á insulina, já que este em idosos está relacionado à redução do metabolismo de glicose no lobo temporal medial. Assim, o exercício é capaz de melhorar a sensibilidade à insulina e contribuir potencialmente para a melhora da memória na doença.

A doença de Parkinson é considerada a segunda doença neurodegenerativa mais comum atualmente, afetando cerca de 0,3% da população em geral. Caracteriza-se pela perda dos neurônios dopaminérgicos da substancia negra, provocando desordem dos movimentos, tremores em repouso, rigidez e bradicinesia. A degeneração dopaminérgica nigroestrital é um dos principais mecanismos da doença, cujos déficits atingem principalmente mecanismos motores. Além do circuito dopaminérgico, noradrenérgico e colinérgico também são afetados na doença de Parkinson, e podem contribuir para as disfunções cognitivas observadas no decorrer da doença.

O conhecimento atual sobre os mecanismos envolvidos no efeito neuroprotetor contra o Parkinson baseia-se em resultados obtidos em modelos animais. Tem sido demonstrado que o exercício tem efeito significativo na função dopaminérgica, de modo a estimular a expressão de fatores neurotróficos e angiogênese. Em resposta ao exercício, observa-se um aumento na concentração de dopamina, o que contribui para a reconstituição da função dos núcleos de base, envolvidos no comando dos movimentos e neurotransmissãoglutamatérgica. Tal aumento parece estar relacionado também ao aumento da concentração de BDNF.

Estudos epidemiológicos sugerem ainda que a prática de atividade física pode impedir o desenvolvimento da doença. Pesquisadores do Instituto Nacional de Ciências Ambientais da Saúde, nos Estados Unidos, coordenados pelo dr. Xu Q. (2010), verificaram que o risco de desenvolver Parkinson parece ser inversamente proporcional à quantidade de atividade física praticada ao longo da vida.

 

Fonte: Psique Ciência e Vida

               

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